Marta Setúbal reaviva memórias com «Arquivo da Vila». Projeto de mestrado com olhos postos no futuro de VRSA

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O «Arquivo da Vila» é um projeto de mestrado de Marta Setúbal, que tem como objetivo incentivar os Vilarealenses a partilharem, responsabilizarem-se pela sua cidade, a participarem ativamente na sua construção e tomarem o poder de um sítio que também lhes pertence. O projeto tem um espaço físico, na rua Dr Sousa Martins nº96 e estará aberto ao público até ao dia 22 de fevereiro. Nesta fase de balanço, é possível perceber que a  população participou entusiasticamente nesta recolha, oferecendo fotografias antigas, cartas, pesquisas realizadas, contando histórias e identificando locais e pessoas que se encontravam em inúmeras fotografias. Os passeios, conversas e workshops realizados no âmbito da tese permitiram dar a conhecer as mudanças que tiveram lugar ao longo do tempo em VRSA. Levou a que opinassem sobre o estado atual da cidade e que refletissem sobre o futuro que pretendem para a mesma. Marta S. «agitou» a população e tentou despertar mais interesse, incentivando a uma participação mais ativa nos assuntos e construção da cidade. A tese «Arquivo da vila, a vila contada, observada e imaginada por quem nela vive» será entregue em outubro, mas face à enorme e positiva experiência que o projeto proporcionou tanto à Marta como à comunidade envolvida, a jovem gostaria de obter apoios para lhe dar continuidade.

Jornal do Baixo Guadiana: Como surgiu a ideia de criar este projeto?

Marta Setúbal: Quando estava a estudar em Berlim, participei num projeto que consistia em andar pela cidade, e eu escolhi um projeto sobre a cidade de Vila Real de Santo António. Mais tarde, tentei procurar um curso onde conseguisse encontrar as bases teóricas para desenvolver um projeto para VRSA e foi aí que encontrei o mestrado que se adequava. Cada vez que vinha a VRSA sentia que faltava algo; havia lugares que as pessoas estavam a esquecer, lugares que conheci na minha infância e dos quais sentia falta uma vez que já não existem, porque foram destruídos – possivelmente, porque houve governantes que não souberam proteger esses lugares e as pessoas não desenvolveram as ações necessárias para impedir a destruição. Verifiquei que as pessoas com quem falava sentiam o mesmo que eu, sentiam a falta dos lugares, mas que não impediram o seu desaparecimento. Havia algo aqui que estava errado e, por isso, criei este estudo!

Comecei por filmar a cidade, fiz entrevistas, tentei interagir mais com a população. Depois criei workshops com crianças e com a população sénior para estabelecer uma ligação; era muito importante criar uma relação de confiança. Verifiquei que tinha que estar na cidade…

(JBG): Em que é que consistiu o projeto e como o desenvolveu na cidade?

(MS): Considerei interessante estudar a relação que os habitantes têm com os lugares construídos na cidade. Nos workshops verifiquei o interesse de todos pelo passado, inclusive nas crianças havia esse interesse. Decidi utilizar o passado como um atrativo para trazer as pessoas a este projeto, visto que as memórias interessavam aos mais velhos, enquanto que as crianças demonstravam curiosidade em obter informação sobre o passado da cidade. Olhando para trás pensei o presente e imaginei o futuro.

Fui criando um arquivo que reuniu informação trazida pelos habitantes, bem como outro material resultante dos workshops. O arquivo não é só uma recolha, uma coleção sobre o passado. Com o arquivo pretendi incentivar a população a pensar sobre aquilo que quer que seja o seu passado; ou seja o que é que querem recordar e esquecer e o que é que consideram importante. É um registo de vivências de cada pessoa. A cidade vista porque quem anda por cá, quem vive, trabalha ou estuda aqui… Estes pequenos contributos de cada um é que fazem a história de VRSA.

Considerei que a partilha destas histórias levaria as pessoas a falarem sobre a sua terra, discutir assuntos e a perceber que os outros vivem no mesmo lugar que eu. Nós partilhamos este lugar e é este que é nosso e nós somos dele. Temos que cuidar dos lugares, temos a responsabilidade de ver este lugar como pertença de todos. São as vivencias e histórias pessoais que são poucas vezes divulgadas e partilhadas.

(JBG): Existem várias atividades neste estudo, entre elas os workshops destinados a diferentes grupos.  O que gostaria de destacar relativamente aos diferentes workshops?  

(MS): Os workshops com as crianças foram criados, levando-as a verem os locais com edifícios abandonados e incentivando-as para que pensassem num projeto novo para um dos edifícios: que inventassem. Compreendi que as crianças, ao contrário dos adultos, não estão habituadas a andar pela cidade e, por essa razão, não a conhecem. Percebi, também, que as pessoas têm medo de falar; medem as palavras, ficam desconfiadas, precisam de conhecer o outro, precisam de um tempo para perceberem com quem estão a falar, só quando têm mais confiança é que falam. Nos workshops notei que tanto os adultos como as crianças têm dificuldade em sonhar, imaginar, projetar o futuro, em encontrar alternativa, como se estivessem perdidos. Fiquei um pouco triste porque a criatividade das crianças estava muito contida…

(JBG): O Arquivo tem um espaço físico em VRSA, como funciona? Quem pode aceder e de que modo?

(MS): Há um arquivo que funciona numa mesa com caixas abertas, onde se encontram os documentos disponíveis. Os habitantes de VRSA trazem fotografias antigas, cartas; material que depois é digitalizado, impresso e fica à disposição de todos. O objetivo é que a população tenha a possibilidade de ver, mexer nos documentos, corrigir algo que esteja errado, ou sugerir outro tipo de organização. Estamos numa cidade que é de todos; e temos que ter abertura, liberdade e vontade para organizar de modos diferentes. O restante espaço tem exposto todo o material das atividades realizadas.

No projeto não me interessava só o passado, uma recolha sem critério de informação, pretendi ligar a parte do presente e futuro. Interliguei o arquivo com outras atividades como os passeios, discussões, workshops, entrevistas e inquérito. Estas atividades dão mais ênfase ao presente porque as pessoas vão para a rua, passeiam, observam os edifícios que existem em comparação com o passado. Realizei outros passeios que se baseavam nos edifícios atuais, bem como outro workshop que se baseou na observação dos cinco sentidos, odores e sons.  É esta observação no presente que  permite também preencher o arquivo e fazer as pessoas pensarem no futuro. Daí o slogan do projeto ser «Arquivo da vila, a vila contada, observada e imaginada por quem nela vive».

(JBG): Tendo em conta que é um projeto relativo ao património cultural da cidade, onde as memórias e vivencias das pessoas são muito importantes, qual foi a aceitação da comunidade?

(MS): As pessoas consideraram interessante, apoiaram, desejaram boa sorte! Inicialmente, esperava mais gente e mais rotação, mas há muitas pessoas que vêm pela primeira vez e voltam para outras atividades!

(JBG): Certamente que no âmbito deste projeto ficou a conhecer muitas histórias interessantes sobre VRSA e seus habitantes. Que histórias são essas!?

(MS): Muitas histórias, e muito interessantes, sem dúvida! Por exemplo:

O senhor António Rosa do grupo Picnic, compilou informação sobre os torneios de futebol e hóquei em patins em VRSA, publicados no «Noticias do Algarve». Verificou-se através das publicidades que existiam na época, quais eram os eventos culturais. Antigamente havia três cinemas (cine-foz, gloria e o lusitano), teatro, torneios de futebol e hóquei em patins.

Havia a questão «do viagem à lua», era um senhor que queria voar e que se atirou de um sítio alto com um guarda-chuva, mas há muitas pessoas que dizem que ele atirou-se do primeiro andar, outras comentam que se atirou de um farolim que existia na mata e caiu em cima de um arbusto, outros dizem que ele nunca se atirou, só desejava ir à lua. Não se sabe o que aconteceu na realidade porque as histórias vão mudando.

O fotógrafo, Lúcio Alves, falou da existência de um aeroporto privado no sapal, junta à estrada de Castro Marim, mas perto de VRSA. Lúcio encontrou um senhor que afirmou ter trabalhado nesse local. Existia um funcionário que acendia uma caldeira para saber de que lado é que estava o vento, de modo a que os aviões aterrassem na direção certa. Deveria ser entre a primeira e a segunda guerra mundial. Lúcio encontrou uns negativos numa casota e uns aviões. Falou com uma senhora que confirmou a presença do aeroporto e que pagou dois centavos e meio para dar uma volta de avião.

A chaminé da fábrica parodi era decorada, esbelta, muito alta, quase tão alta como o farol. A chaminé era um símbolo de uma época dourada, um período de muita riqueza, quando existiam mais de 20 fábricas de conserva e de outras indústrias ligadas à conserva, litografia e gráfica. Quase toda a população teve membros da família que que trabalharam nas fábricas. Quando a chaminé foi destruída as pessoas ficaram tristes. Ainda hoje se diz quando alguém mente que «tens o nariz maior que a chaminé da fábrica do parodi». Atualmente, ficou intacto edifício que era a residência do parodi. O que os residentes preferiam era que deveriam de ter deixado a chaminé da fábrica em pé, porque era ali que se fazia a cozedura do atum, era um ex-libris da zona. Existem algumas ruínas das fábricas na parte norte. O edifício que foi a embaixada de Espanha era a residência dos donos da fábrica dos gregos.

Havia muitas pessoas de VRSA que iam trabalhar para Tânger nas fábricas de conserva entre 3 a 6 meses e levavam as crianças, viviam em barracas em condições precárias.

A horta dos Falconer era aberta ao público (1950) para as pessoas passearem, tinham uma parte com jardim com bancos e uma nora, era aqui que os vilarealenses faziam os passeios de domingo. Houve uma senhora que fez um desenho do jardim, este tinha um campo de ténis que podia ser usado pelos visitantes. Atualmente, a área da horta está construída e ocupada por prédios.

Havia um jardim que começava no início da marina e era composto por duas partes: tinha uma parte de labirinto, com flores, arbustos, canteiros, uma árvore muito grande que tinha raízes enormes onde as crianças brincavam; tinha outra parte plana onde se aprendia a andar de patins, bicicleta e skate. Hoje em dia não existe nenhum parque onde se possa praticar skate e patins, o mais próximo é em Tavira. No lugar do jardim existe atualmente a marina.

(JBG): Com os conhecimentos e experiências que obteve na Alemanha, e com o projeto a que deu vida em VRSA o que pensa poder experimentar, adaptar e, inclusivamente, alterar na cidade pombalina?

(MS): A ideia é gerar discussão, que se fale da cidade, que este espaço esteja no dia a dia das pessoas e com esperança de que exista mais partilha, mais sentido de responsabilidade e a participação cidadã que está em falta. Na Alemanha há muitos projetos para trabalhar com a comunidade, há mais dinheiro e financiamento para estas atividades, mas a população alemã tem uma maior abertura, tem mais sentido de comunidade, de ajudar as pessoas que estão a viver à sua volta, há vontade de partilhar, de participar, de falar sobre os assuntos. Quando há visitas guiadas há interesse em participar e fazer perguntas, há uma grande adesão desde atividades organizadas ao nível da comunidade como a nível institucional. Em Portugal pelo contrário, os habitantes não participam, não mostram interesse. Possivelmente, a apatia e falta de ação está relacionada com a nossa história, devido à ditadura em que vivemos no passado, onde não havia liberdade de expressão, interessava que as pessoas se calassem, que tivessem medo. A nossa ditadura é mais recente do que a alemã, saímos da ditadura e entramos numa europa consumista e individualista. Ainda não tivemos tempo para pensar no que é Portugal, no que nós somos e ainda temos o receio de dar as nossas opiniões. Em Portugal houve esta tentativa de incutir na população a propaganda de que nós somos mais suaves, dos brandos costumes, criando uma passividade, uma espécie de «coma» ou de dormência que não vemos nos outros países. Por exemplo, em Espanha, Itália e Grécia que são países do Sul vemos muito mais agitação em manifestações do que em Portugal, mas começa a surgir a pergunta «porque é que nós somos assim?», mesmo em vários meios de comunicação social, todos comentam. Pensei que se esses projetos são possíveis na Alemanha porque é que não é possível existir aqui, se somos todos seres humanos, temos opinião? Isso fez-me ver que era possível criar alguns projetos que não existiam em VRSA.

(JBG): Gostava de ver mais cidadania ativa, maior participação de todos…

(MS): A Alemanha permitiu-me perceber que é possível haver outro tipo de interação. O que eu gostaria muito que acontecesse era que as pessoas aqui tivessem muito mais interesse, mais influência e participassem na construção do lugar onde vivem. É algo que existe na Alemanha e que não existe cá. Nós temos uma sociedade muito paternalista, pensamos que os nossos governantes é que vão resolver todos os problemas e não pensamos que somos nós que devemos ter o poder de construir o nosso espaço à nossa maneira, é muito difícil transformar essa mentalidade, mas há muitos sinais de mudança.

(JBG): O projeto está a terminar após 6 meses de estudo.  Que balanço é possível fazer-se nesta altura?

 (MS): Vila Real de Santo António tem uma potencialidade muito grande, tanto na parte geográfica porque tem sol, mar, rio, sapal, dunas, mata e, inclusive, nas partes construídas como nas ruínas das fábricas, nos edifícios e também nos espaços vazios que não estão a ser utilizados. Tem também uma grande potencialidade nas pessoas, que fazem coisas em casa, ao nível artístico, mas não são conhecidas, nem acarinhadas … estão escondidas. Cada pessoa está sozinha no seu sítio. Vê-se uma grande potencialidade que não está a ser usada.

(JBG): Olhando para o futuro, que projetos para quando finalizar a tese?

(MS): Gostaria muito de ter possibilidade de dar continuidade a este projeto. Mas para ficar a fazê-lo em VRSA é necessário angariar apoios, nomeadamente, de alguma instituição. Foram seis meses muito intensos, de muita recolha que gostaria muito que ficasse disponível para sempre e ao alcance de todos, uma vez que resulta do contributo de muitas pessoas. Iniciei o projeto em setembro do ano passado e irei encerrar no dia 22 de fevereiro de 2019!

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Carmo Costa
Maria do Carmo Costa nasceu no Monte do Estoril, estudou e viveu alguns anos em Lisboa, mas atualmente vive em Espanha. É licenciada em Ciências da Comunicação e tem Mestrado em Relações Interculturais. Estudou inglês e espanhol em institutos de línguas. Frequentou o Curso de Fotografia, realizado pela Associação Um Quarto Escuro de Vila Real de Santo António. Publicou ebooks na Amazon, um de culinária, denominado “Bebidas Quentes e Saborosas: Receitas Caseiras e Fáceis” (versão inglesa e espanhola); publicou também ebooks infantis, tais como, “Aprender os Números com o Putchi” (versão inglesa e espanhola); “Aprender as Formas Geométricas com o Putchi” (versão inglesa e espanhola); “Aprender as Cores com o Putchi”; “As Aventuras de um Copo de Chá”; “Carol, The Flower that Dreamed to Fly”; “Uma Aventura de Natal”. Participa no grupo “Poetas do Guadiana”, onde declama poemas de sua autoria e de outros autores.

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