Razão #23: Eleições para o Parlamento Europeu II: Copo meio cheio ou copo meio vazio?

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João Tàtá dos Anjos

Especial Eleições Europeias

«60 anos, 60 boas razões para a União Europeia»

ADERE A CAMPANHA #DestaVezEuVoto

Há dias o jornal britânico “The Guardian” publicou um manifesto (também publicado em vários outros jornais europeus). O referido manifesto foi redigido pelo filósofo Bernard-Henri Lévy e subscrito por 30 intelectuais famosos provenientes de 21 países diferentes, dos quais se destacam os escritores Milan Kundera, Salman Rushdie e Ian McEwan, o historiador Simon Schama e os Nóbeis Svetlana Alexievitch, Herta Müller, Orhan Pamuk e Elfriede Jelinek.

Nele, os signatários consideram que os valores liberais na Europa enfrentam um desafio “nunca visto desde a década de 1930”, enquanto que o continente foi “abandonado do outro lado do Canal” – uma referência oblíqua ao processo do Brexit que fez mergulhar as relações anglo-europeias ao seu ponto mais baixo desde a II Guerra Mundial. O grupo declara no manifesto que “devemos lutar pela Europa agora ou perecer sob as ordas do populismo”, acrescentando que “precisamos redescobrir o voluntarismo político ou aceitar que o ressentimento, o ódio e o seu cortejo de paixões tristes nos cercarão e nos submergirão.” Eles temem que as eleições da UE sejam “as mais calamitosas que já conhecemos: a vitória dos destruidores; uma desgraça para aqueles que ainda acreditam no legado de Erasmo, Dante, Goethe e Comenius; desdém pela inteligência e cultura; explosões de xenofobia e antissemitismo; desastre”. Consideram ainda que a Europa, “abandonada do outro lado do Canal e do outro lado do Atlântico pelos dois grandes aliados que no século anterior o salvaram duas vezes do suicídio; vulnerável às manipulações cada vez mais evidentes do mestre do Kremlin, a Europa enquanto ideal, vontade e representação, se está a desmoronar diante dos nossos olhos”. Os signatários do manifesto escrevem que “não se resignam com essa catástrofe iminente”. Eles consideram que “três quartos de século após a derrota do fascismo e 30 anos após a queda do muro de Berlim, está em andamento uma nova batalha pela civilização”. Apesar dos seus “erros, lapsos e ocasionais atos de cobardia”, a Europa continua a ser “a segunda casa de todos os homens e mulheres livres do planeta”. Os pró-europeus “não têm escolha”, dizem eles. “Devemos soar o alarme contra os incendiários da alma e do espírito que, de Paris a Roma, com passagem por Barcelona, ​​Budapeste, Dresden, Viena ou Varsóvia, estão a brincar com o fogo das nossas liberdades”.

Salman Rushdie disse ao “The Guardian que espera que o Parlamento Britânico ainda possa ter a coragem de pedir um segundo referendo. Isso poderia resgatar o país da calamidade do Brexit e resgatar a UE também. Ian McEwan acrescentou que assinou o manifesto porque estava muito pessimista quanto ao momento atual, mas que tenta ter esperanças de que o zeitgeist mude. Orhan Pamuk, por seu lado acha que a ideia da Europa também é importante para os países não ocidentais, uma vez que, sem esta, a liberdade, os direitos das mulheres, a democracia e o igualitarismo são difíceis de defender na parte do mundo de onde ele é oriundo. O sucesso histórico da Europa facilitou a defesa desses ideias e valores que são cruciais para a humanidade. Não existe, segundo ele, Europa para além desses valores, exceto a Europa do turismo e dos negócios. A Europa é, mais do que uma localização geográfica, a incarnação desses ideias – atualmente sob ataque.

Num artigo muito interessante (mas igualmente pessimista) também recentemente publicado, Jan Techau do German Marshall Fund, descreve o impasse do Brexit como “um vislumbre da desagradável Europa normal”. Com isso, ele quer dizer que as sete décadas de paz na Europa após a II Guerra Mundial foram a exceção que confirma a regra (da guerra), só possível pela garantia de segurança fornecida/paga pelos EUA. Ora com a mudança verificada na Casa Branca nas eleições presidenciais de 2016, a garantia de segurança estaria a esboroar-se, explicando assim o fenómeno do Brexit. Mas há pior: o abandono por parte quer da Rússia, quer dos EUA do Tratado de Forças Nucleares Intermédias (aquelas a serem utilizadas no continente europeu em caso de guerra), coloca de novo a Europa como refém de ambas as superpotências militares. Finalmente, no momento em que vos escrevo estas linhas acabo de ler um artigo arrepiante sobre a criação a cerca de 100 km de Roma de uma espécie de universidade para formar os futuros dirigentes da extrema-direita europeus sob a égide de Steve Bannon (o ideólogo por detrás da vitória eleitoral de Donald Trump para as presidenciais norte-americanas de 2016). A dita “universidade” seria a primeira de muitas a surgir por essa Europa fora, sem que se saiba de onde provirá todo o dinheiro necessário para este projeto extremamente ambicioso.

Mas todo o pessimismo acima descrito parte do princípio de que o populismo, que tem de facto avançado na Europa e noutros continentes, é invencível e só tem conhecido sucessos. Ora a realidade é bastante mais matizada:

  • O Presidente Trump teve de recuar no seu propósito de shut down dos serviços governamentais por pressão dos funcionários públicos, naquilo que foi uma derrota muito importante após a vitória eleitoral do Partido Democrata para as eleições do congresso;
  • O Presidente húngaro Victor Orban teve de recuar, face à pressão popular, na sua intenção de adotar uma lei laboral extremamente desfavorável aos trabalhadores daquele país (slave work);
  • A Itália, por pressão dos mercados, abandonou o seu projeto de sair do € e encontra-se a braços com uma recessão económica que descredibilizou os dois parceiros (populistas) de governo;
  • As ameaças de um Frexit, Italexit ou Nexit (saída dos Países Baixos) esboroaram-se devido à inquietação com que as opiniões públicas francesa, italiana e holandesa encaram o triste espetáculo das negociações de abandono do Reino Unido da UE. Este facto obrigou Marine Le Pen, Matteo Salvini e Geert Wilders a fazerem um recuo estratégico;
  • O encontro entre o vice-primeiro-ministro italiano (Luigi Di Maio) e uma figura importante do movimento dos coletes amarelos em França (Christophe Chalencon), onde o líder italiano anunciou o seu apoio ao movimento de protesto que desafia a autoridade do Presidente Emmanuel Macron, foi à primeira vista uma vitória dos populistas, mas, como explicado abaixo, antes uma gaffe que terá o efeito contrário.

Di Maio, que dirige o movimento anti-establishment Cinco Estrelas, afirmou após o encontro que ambos descobriram “muitas posições e valores comuns que colocam no centro de tantas batalhas cidadãos, direitos sociais, democracia direta e meio ambiente”, acrescentando que o clima das negociações foi de “grande entusiasmo”.


A visita de Di Maio a França antes das eleições para o PE faz parte dos seus esforços para encontrar aliados estrangeiros em toda a União Europeia, mas sobretudo para tentar inverter a perda de intenções de votos a favor do seu “aliado” governativo Matteo Salvini do partido a Liga. Para Di Maio não se trata tanto de atacar Macron – que Salvini identificou como sendo o seu principal adversário nas eleições europeias – mas antes de passar as culpas pelo que ele considera errado na Europa (e, por extensão, em Itália) para a França. No entanto, se pensarmos bem, o verdadeiro vencedor da disputa Itália-França é a Europa já que os ataques dos populistas italianos a Paris (assim como os esforços de Steve Bannon para reforçar a extrema-direita europeia) são um sinal de que a política da Europa está finalmente a apagar as fronteiras nacionais, algo que os pais fundadores da UE nunca conseguiram.

Este tipo de provocações pessoais já se tinham manifestado no auge da crise da zona euro (troca azeda de acusações entre os governos grego e alemão), mas a disputa franco-italiana é um salto qualitativo ao trazer a público a “lavagem de roupa suja” da UE, pondo a nu os desacordos que os governos frequentemente têm e que são resolvidos (ou não) à porta fechada nas reuniões do Conselho Europeu.

Ao expor publicamente os desacordos mais profundos que impedem a tomada de decisões consensuais pela UE – incluindo a questão das migrações – e ao dar maior atenção aos assuntos internos dos países vizinhos, está a expor onde reside a verdadeira responsabilidade pelos problemas e hesitações do continente: nas capitais nacionais e não em “Bruxelas” e nos seus muito vilipendiados “burocratas sem rosto” – bodes expiatórios fáceis e muito úteis para as capitais europeias.

Por outro lado, este tipo de disputa bilateral pública, ao trazer as divergências à tona, pode acabar por criar um novo espaço político para discutir desafios europeus comuns. Os partidos nacionais vão criar alianças supranacionais para tornar os seus projetos europeus uma realidade. À medida que as campanhas políticas para as eleições europeias entrarem em marcha, essa tendência só se intensificará. De facto, este incidente diplomático representa o começo de uma nova maneira de fazer política na Europa e de emprestar às eleições europeias um cariz supranacional que nunca teve.

Historicamente, a política da UE tem sido mais um assunto nacional do que uma política verdadeiramente europeia. Esta disputa deve, pois, ser vista como a europeização da política que pode libertar a UE dos grilhões que retardaram o seu reforço por demasiado tempo!

#desta vez eu voto 

#FutureOfEurope

#EUPublicopinion#EUnaUE

#EuHaveYourSay 

#EE2019

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