Fomos até Almodóvar e descobrimos como o Algarve e Alentejo têm tanta autenticidade e potencial em comum

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O Alentejo, o Algarve e Andaluzia compõem a Euroregião AAA. Se a nossa visão for para lá das linhas que nos separam muito haverá para descobrir quanto ao que nos une. O Jornal do Baixo Guadiana, sedeado em Castro Marim, Algarve, foi convidado pela «Associação das Terras e das Gentes da Dieta Mediterrânica» a descobrir o Alentejo. Éramos nós e inúmeros bloggers numa visita à descoberta de um lugar novo. A experiência foi tão acolhedora quanto familiar. Saímos dela, debaixo de muita chuva, mas de coração cheio por nos terem feito sentir em caso e reforçarmos a ideia de que temos uma identidade-irmã ao nosso lado, à nossa disposição para partilharmos conhecimento e exponenciarmos a escala do que é autêntico e perene.

Entre montados de sobreiros, planície, Serra do Caldeirão e rio Mira, eis que surge Almodôvar, a terra dos queijos, enchidos, mel e medronho. Uma região de bons manjares mediterrâneos, os sabores a sul por excelência. Com muita história que remonta ao período dos Tartessos (Escrita do Sudoeste), Romanos (povoados), Árabes (fortificação) e a lenda do homem-lagarto. Foi neste lugar singular que o Jornal do Baixo Guadiana observou a beleza natural do interior e suas potencialidades.

As Vivências de um Povo

O Museu Arqueológico e Etnográfico Manuel Vicente Guerreiro, em Almodôvar, fundado em 1980, ocupa cerca de 800 m2 e tem um espólio com mais de 3600 peças, que foram oferecidas, essencialmente, pelos habitantes.  O Museu retrata a vida de aldeia daquela região, preservando a memória do povo, onde gente simples subsistia com os animais e produtos agrícolas que a terra dava, retiravam a cortiça dos sobreiros, produziam trigo, azeitonas, criavam porcos, cabras, vacas, dos animais faziam queijos, enchidos, mel e obtinham o linho. As destilarias e os moinhos de vento eram engenhos que permitiam produzir a farinha para o pão e as aguardentes. Aqui o visitante viaja no tempo, aprendendo sobre os povos antigos que habitaram aquelas paragens, sobre o ciclo do pão, as antigas alfaias agrícolas, a taberna antiga, a casa da aldeia. Um regresso à juventude para os mais velhos, uma aprendizagem sobre as origens para os mais novos.

Escrita do Sudoeste, única e indecifrável

Almodôvar tem o Museu da Escrita do Sudoeste, uma escrita que remonta à idade do ferro (século VIII-V a.c.), é o mais antigo sistema de escrita da Península Ibérica, foi aparentemente desenvolvido pelos Tartessos, sendo distinta das escritas existentes e permanece indecifrável até agora.

Redescobrir o prazer da comida com «Slow Food»

Otília Eusébio e Miguel Velez, dirigentes da «Associação das Terras e das Gentes da Dieta Mediterrânica», uma associação que surgiu com grupo de ativistas alimentares que conheciam o conceito slow food e que pretende a defesa de uma gastronomia de produtos locais, sazonais, juntando o conceito milenar da dieta mediterrânica, respeitando a cultura das populações e o território.

Ver Vídeo:

O que é o movimento Slow Food?

O movimento “Slow Food” foi fundado em Itália, por Carlo Petrine em 1986. Esta organização não governamental, tem como intuito conjugar o prazer da comida com uma alimentação consciente e responsável. Pretendem defender a biodiversidade na cadeia de distribuição alimentar, valorizar os produtos, os produtores, a natureza e informar os consumidores sobre a origem dos produtos.  Consideram que o alimento «deve ser bom, limpo, justo» e saboroso. Precisa ser produzido de modo a respeitar o meio ambiente, os preços devem ser justos, para o produtor e para o consumidor. O «Slow Food» criou a «Arca do Gosto», este projeto visa documentar, reconhecer e catalogar sabores de produtos esquecidos ou em vias de extinção, como por exemplo a Ovelha Churra do Algarve e a Água-Mel de Almodôvar. Visa também conservar os ecossistemas em risco de desaparecerem, através de sustentabilidade ambiental e socioeconómica.

O Conceito é divulgado através de eventos como «Á Noite no Mercado», evento realizado no concelho de Mértola. A iniciativa surgiu da ideia em abrir o mercado para um jantar, a organização disponibilizava um prato para todos, baseado no tema que era escolhido e depois a população local levava também alguns alimentos cozinhados locais e sazonais.  

A Qualidade e Valor dos Recursos Silvestres

Valorização dos Recursos Silvestres do Alentejo (PROVERE) é um projeto que tem como objetivo promover os produtos endógenos do Município de Almodôvar e do Baixo Alentejo, nomeadamente, o Medronho, Mel, Plantas Aromáticas e Medicinais, Caça, Peixe do Rio, Figo da Índia e Cogumelos, demonstrando a qualidade de excelência e o valor gastronómico. Outra das apostas deste projeto centra-se também no turismo gastronómico («food tours»), uma forma de auxiliar os produtores a rentabilizar os produtos e garantir a sustentabilidade da sua produção. Foi no âmbito deste projeto juntamente com o movimento slow food coordenado pela «Associação das Terras e das Gentes da Dieta Mediterrânica» e pela Câmara de Almodôvar, que estivemos presentes em colóquios, conhecemos a feira do cogumelo e do medronho, visitamos alguns produtores, degustamos diversos alimentos confecionados, fomos presenteados com música alentejana. Estes eventos foram uma demonstração do potencial que todo o território interior tem, desde o Alentejo até ao Algarve, incluindo o nosso território, o Baixo Guadiana.

Mel, um doce natural

Laurentino Mendes, Apicultor da Apimigor criou a sua empresa em 1990, mas obteve este conhecimento e paixão através do seu pai. Atualmente, usa colmeias móveis, que são organizadas e fáceis de manejar, feitas e pensados de modo a que as abelhas preencham a folha de cera com o mel e consigam movimentar-se entre os favos, esta colmeia permite retirar o mel sem danificar a estrutura ou matar abelhas. Laurentino tem cerca de 2.000 colmeias, abarcando zonas do concelho de Beja, Faro e a Serra do Caldeirão, como são zonas desertificada e sem fábricas, têm uma flora natural, limpa, com pouca poluição, permitindo ter um excelente mel. O apicultor alertou para o facto das abelhas estarem a desaparecer, pois estas orientam-se por ondas magnéticas e pelos odores, com os telemóveis e novas tecnologias, os humanos interferem na sua orientação e as abelhas não conseguem regressar à colmeia.

Aguardente de Medronho no Feminino

Sónia Cabrita, produtora de Aguardente de Medronho em São Barnabé, herdou esta empresa de sua mãe. A produtora explicou que os medronhos colhidos são os maduros, mas é preciso colher os frutos várias vezes porque os medronhos não amadurecem todos em simultâneo, por isso, o produto fica mais caro. Depois de apanhados e limpos são colocados em cubas, ficam a fermentar, em seguida é destilado e arrefecido. Todo o processo é realizado recorrendo a uma caldeira a vapor. A massa que resulta da destilação é utilizada no ano a seguir como fertilizante nas hortas. A sua aguardente é produzida com medronhos biológicos. O segredo da aguardente de medronho está na recolha selecionada. Sónia cabrita lamenta o facto da aguardente ter má imagem, não é considerada uma bebida requintada, está muito ligada às tabernas e o cliente desta bebida não quer pagar muito. Atualmente, em termos académicos, as mulheres são as especialistas em relação à aguardente de medronho e do medronheiro, derivado às investigações realizadas nas universidades do Algarve e de Coimbra que são dirigidas por mulheres. A produtora faz um apelo aos consumidores para que estes usem aguardente de medronho quando fizerem em casa mojitos, caipirinhas ou cocktails que levem cachaça, tequila ou rum, também sugere beber sumo de laranja fresco com um pouco de aguardente de medronho.

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Carmo Costa
Maria do Carmo Costa nasceu no Monte do Estoril, estudou e viveu alguns anos em Lisboa, mas atualmente vive em Espanha. É licenciada em Ciências da Comunicação e tem Mestrado em Relações Interculturais. Estudou inglês e espanhol em institutos de línguas. Frequentou o Curso de Fotografia, realizado pela Associação Um Quarto Escuro de Vila Real de Santo António. Publicou ebooks na Amazon, um de culinária, denominado “Bebidas Quentes e Saborosas: Receitas Caseiras e Fáceis” (versão inglesa e espanhola); publicou também ebooks infantis, tais como, “Aprender os Números com o Putchi” (versão inglesa e espanhola); “Aprender as Formas Geométricas com o Putchi” (versão inglesa e espanhola); “Aprender as Cores com o Putchi”; “As Aventuras de um Copo de Chá”; “Carol, The Flower that Dreamed to Fly”; “Uma Aventura de Natal”. Participa no grupo “Poetas do Guadiana”, onde declama poemas de sua autoria e de outros autores.

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