«Cristóvão de Mendonça, um desconhecido comendador de Arenilha»

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Os últimos anos têm vindo a assistir a uma redescoberta do que foi a antiga vila de Santo António de Arenilha, fundada na foz do Guadiana, em 1513. De facto, a identificação, estudo e problematização de novas fontes têm permitido que se comece a perceber qual a importância geo-estratégica de Arenilha no círculo luso-hispano-marroquino em que se insere. É precisamente nesse sentido que publicações como “Ataques da pirataria à foz do Guadiana e a acção de António Leite, alcaide-mor de Arenilha”, dão-nos conta de novidades que, efectivamente, vêm comprovar a existência de uma vila com mais dinamismo e importância do que inicialmente se pensava. As novas descobertas, porém, não param de surgir, pelo que a identificação de dois novos documentos vêm agora revelar a identidade de um comendador de Arenilha até agora desconhecido: Cristóvão de Mendonça, um dos navegadores mais polémicos e controversos da História dos Descobrimentos Portugueses. Filho de Diogo de Mendonça, alcaide-mor de Mourão, Cristóvão de Mendonça aparece referido na documentação como fidalgo da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo, em 1514. Em 1519 parte para o Oriente, onde é incumbido de descobrir as míticas Ilhas do Ouro. De resto, as misteriosas navegações de Cristóvão de Mendonça nos mares da Australásia têm levado alguns investigadores a considerá- lo o primeiro navegador europeu a chegar à Austrália, teoria não consensual e que tem gerado acessos debates entre a comunidade científica. Porém, e independentemente dos resultados das navegações do explorador português, vários documentos recentemente identificados vêm atestar que Cristóvão de Mendonça foi generosamente agraciado com rendas, mercês e distinções aquando do seu regresso ao reino, nomeadamente, com a atribuição de rendimentos e com a nomeação para a capitania de Ormuz, uma das mais rentáveis e cobiçadas de todo o Império no Oriente. Estas não foram, no entanto, as únicas honrarias com que o navegador português foi distinguido. Dois documentos recentemente identificados, datados de 1529 e 1530, vêm demonstrar que Cristóvão de Mendonça foi agraciado com uma honrosa comenda da Ordem de Cristo: a comenda da vila de Arenilha, na foz do Guadiana. Por outras palavras, motivo de grande honra e prestígio numa época em que muito poucos chegaram a obter as tão almejadas comendas como recompensa pelos serviços prestados. De modo a dar a conhecer esta importante descoberta da nossa História Local, o Arquivo Histórico Municipal António Rosa Mendes, em VRSA, tem patente ao público, até fins de Janeiro de 2019, uma exposição sobre este desconhecido comendador de Arenilha, sendo que a respectiva investigação acaba de ser publicada na e-Strategica – Revista da Associação Ibérica de História Militar e será apresentada publicamente no Arquivo Histórico da cidade pombalina, no dia 11 de Janeiro de 2019.

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Fernando Pessanha
Fernando Pessanha nasceu em Faro, em 1980. É doutorando em Património Histórico, pela Universidade de Huelva, mestre em História do Algarve e licenciado em Património Cultural, pela Universidade do Algarve. Conferencista e investigador da Associação Ibérica de História Militar e da Fundação al-Idrisi Hispano Marroquina, é autor de vários livros e artigos científicos publicados em Portugal, Espanha e Marrocos. Atualmente trabalha como técnico superior de cultura no Arquivo Histórico Municipal António Rosa Mendes, em Vila Real de Santo António.

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