A música clássica e o início de uma viagem pelas tradições do canto chão

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Faço votos para que a vossa semana tenha corrido da melhor forma possível e para que estejam a “aprender” um pouco mais sobre a história da música ocidental. Depois de termos percorrido todas as tradições mais importantes do Canto Chão, nomeadamente: o Canto Mocárabe, Canto Ambrosiano e o Canto Romano Antigo, e na rubrica anterior ter feito uma breve introdução ao Canto Gregoriano particularmente ao mito gregoriano.

Esta semana irei escrever sobre os ritmos, a formação, os géneros, as formas e estilos de composição do Canto Gregoriano, para assim encerrar este capítulo das tradições do Canto Chão e desta forma pudermos seguir a viagem na próxima semana para mais uma época.

Canto Gregoriano

Formação do Canto Gregoriano: Sabe-se que em 754 o Papa Estevão II procurou apoio junto de Pepino, o Breve, contra a aproximação do Lombardos: Colocamos a nossa igreja nas vossas mãos e vós prometestes defendê-la. Enquanto permanece em França, o Papa percebe a diferença de ritos e de canto que ali se praticam; exorta à unidade e deixa o território gaulês o subchefe da Schola Cantorum para ensinar a música romana.

Por sua vez, o Bispo de Metz Chrodegang, depois da sua estada em Roma aonde tinha acompanhado o Papa pretende introduzir o Canto romano na sua cidade e constitui uma Schola à imitação da romana. De facto, Metz converter-se-á em importante centro de irradiação litúrgica e musical durante a Idade Média.

Por sua vez, Carlos Magno, sentido a mesma divergência na disciplina litúrgica interessa-se igualmente pela aproximação a Roma e ordena em 789, que os clérigos aprendam perfeitamente o canto romano, impondo-o sucessivamente para a Missa e para o Ofício. No seu tempo chegaram a Roma mais dois cantores, trazendo o Sacramentário Gregoriano.

Alcuíno e os outros mestres entre eles Amalario Bispo de Metz e Agobardo Bispo de Lyon, copiaram e completaram esses livros. O resultado de tais ações foi óbvio:

.   Uma liturgia esculturada ou um compromisso entre ambas as tradições;

. Um canto litúrgico fundamentalmente romano com marcas galicanas muito definidas.

E assim terá nascido um repertório novo de compromisso: a fusão das tradições musicais romana e galicanas.

O qualificativo de gregoriano aplicado a este canto explica-se pela vontade de dar autoridade e universalidade a esta inovação, o que corresponde à tradição da fama musical de S.Gregório, divulgada por essa mesma altura.

O ritmo

Ao contrário do que se pode pensar o Canto Gregoriano não é arrítmico. Pelo contrário, a relação entre sons isolados e em grupo é aqui mais importante do que porventura noutros sistemas musicais. A ordem rítmica exprime-se de uma elevação e de um repouso e que se verifica de uma forma crescente e envolvente.

Na realidade o ritmo gregoriano não é senão a sequência ininterrupta de conjuntos elementares binários e ternários de um valor considerado indivisível, identificados pelo Ictus. É sobre essas unidades elementares que se estabelece a relação entre Arsis e Tesis (elevação e repouso), relação essa que se envolve em dimensões sucessivamente mais amplas em ordem ao grande arco rítmico que, mais ou menos visível constitui toda a peça.

A notação gregoriana

O Canto chão desconheceu até ao séc.IX qualquer sistema de educação. Era uma simples tradição oral, logo implicava um respeito sagrado pela tradição de que só alguns especialistas podiam assumir a responsabilidade. Na prática, sempre que era preciso criar uma peça para uma festa nova a composição fazia-se com base em fórmulas pré-existentes que constituíam como que o depósito da tradição.

Tal como acontecia com outras culturas musicais acreditou-se durante muito tempo na sacralidade da tradição romana, como se pode concluir pela lenda da Inspiração do Espírito Santo ao ouvido de S.Gregório.

Assim, foi possível garantir a continuidade de um repertório durante séculos, se que houvesse qualquer espécie de notação. De qualquer modo, sabe-se que não era fácil assumir o papel de cantor solista: este precisava de cerca de 10 anos para memorizar todo o repertório litúrgico

Géneros e formas gregorianas

.Todo o repertório gregoriano pode classificar-se pelos géneros e pelas formas.

Quanto aos géneros, existe o estrófico, salmódico e monológico. Mais em concreto:

  1. Género estrófico: é aquele que é feito sobre uma base estrófica, isto é, em que uma mesma melodia se aplica sucessivamente a diversas estrofes
  2. Género salmódico: é todo o espécime gregoriano construído sobre um salmo e, de uma ou outra forma, dependente da fórmula salmódica. A este propósito é importante compreenderem-se bem as noções de Salmo, Fórmula salmódica e Sistemas de execução.
  3. Corresponde ao repertório dos monólogos ou diálogos das celebrações, normalmente em estilo silábico e em forma Recitativo. Entram neste género as orações, as leituras, o prefácio da Missa e ainda alguns diálogos entre os ministros celebrantes e a assembleia. Como a forma Recitativa deixa entender, não se trata de um canto propriamente dito, mas de uma cantilação essencialmente dependente dos sinais de pontuação.

Formas tardias do Canto Gregoriano

São assim denominadas algumas formas gregorianas que, sendo tardias, supõem por um lado um repertório anterior e, por outro lado decididamente para nos horizontes no domínio histórico. São os Tropos, as Sequências e os Dramas litúrgicos. Estas formas musicais têm em comum para além do substrato gregoriano, uma ideia e uma finalidade.

Terminamos assim desta forma as tradições do Canto Chão que como podemos verificar ao longo destas últimas semanas são tradições muito importantes para a evolução da cultura musical, quer da época quer das épocas seguintes.

É de salientar, que o Canto Chão está na bastante presente no Cante Alentejano, existe quem vá mais longe e afirme que o Cante Alentejano seja o Canto Chão moderno.

Desafio-os a deixarem os vossos comentários.

Deixo aqui sugestões musicais.

Boas leituras e boas audições



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João Bartolomeu
João Miguel Guerreiro Bartolomeu, nascido a 26 de junho de 1985. Iniciou os seus estudos musicais com o Maestro António Batista na escola de música da Banda da Associação Cultural de Vila Real de Santo António. Estudou no Conservatório Regional de Beja – Classe do Professor Paulo Cordeiro e na Universidade de Évora- Curso de Música na Classe do Prof-Hugo Assunção. Ao longo do seu percurso musical fez parte da Orquestra Filarmónica de Lisboa, Orquestra Sinfónica Juvenil Portuguesa e da Orquestra de Estúdio WESO (West european Studio Orchestra-Orquestra de gravações para anúncios publicitários ) e do Ensemble MPMP. Trabalhou com diversos maestros tais como, Kodo Yamagishi, Christopher Bochmann, Jan Wierzba , Diogo Costa , Roberto Pérez, Fernando Marinho, António Saiote, André Granjo, José Pedro Gomes,Leandro Alves, Pedro Neves, Jean Sebastien Bereau entre outros . Frequentou masterclasses de trombone com professores tais como, Hugo Assunção, André Conde,Paulo Cordeiro, Byron Fulcher , Hermenegildo Campos, Nuno Scarpa,entre outros. Orientou diversas masterclasses de trombone, em Santa Marinha-Seia, Pampilhosa da Serra, Moura, Gavião, Vila Real de Santo António entre outros locais. Foi também responsável pela classe de trombones no I estágio de orquestras de sopros do Conservatório Regional de Vila Real de Santo António, no Curso de Instrumentistas do Conservatório Regional do Baixo Alentejo-Beja e no Estágio de Orquestra de Sopros em Abrantes. Tocou a solo com a Banda musical Castromarinense em diversas ocasiões, com a banda da Sociedade Filarmónica e Recreativa Alverquense-Alverca e com a banda da Sociedade Musical União Recreio e Sport Sineense-Sines. Lecionou no Conservatório Regional de Vila Real de Santo António, no Curso Profissional de Instrumentistas de Vila Real de Santo António, no Conservatório do Baixo Alentejo-Beja, Moura e Castro Verde e no Ensemble Montemor. Atualmente é professor de metais na escola de música da Sociedade Estrela da Beira-Santa Marinha, Seia, professor de iniciação e instrumento na escola de música do Grupo Musical e Fraternidade Pampilhosense-Pampilhosa da Serra, professor de música na Santa Casa da Misericórdia da Pampilhosa da Serra-valência creche e pré-escolar e é ainda maestro da banda da Sociedade Filarmónica Galveense-Galveias e coordenador da sua escola de música. É também aluno no curso de banda na Academia Europeia de Direção de Banda na classe dos Professores Paulo Martins, Jan Cober,Javier Viceiro-Figueira,André Granjo e Andrés Alvarez.

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