No Baixo Guadiana pode observar até 200 espécies de aves em plena Reserva Natural

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Saída de Campo na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e VRSA

A Biblioteca Municipal Vicente Campinas foi palco de uma Palestra sobre «Ornitologia» e de um workshop sobre «Fotografia de Aves Selvagens» no passado dia 17 de novembro. A palestra foi conduzida pelo ornitólogo Gonçalo Elias e o workshop foi apresentado pelo fotógrafo de avifauna Agostinho Gomes. Da parte da tarde houve lugar para uma saída de campo às salinas do Cerro do Bufo, em plena Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António. Esta iniciativa foi organizada pela Associação Odiana, tendo como intuito “promover este nicho de mercado no baixo guadiana, Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António”, como explicou Sílvia Madeira, Diretora Executiva desta associação que em 2018 está a comemorar 20 anos de atividade.

Observação de Aves surge em Portugal no final do séc. XIX

Gonçalo Elias iniciou a palestra fazendo um enquadramento histórico, explicando, desde logo, que a ornitologia é a ciência que se dedica ao estudo das aves. A observação de aves surgiu em Portugal no final do século XIX, só a partir deste período é que apareceu o interesse por esta temática, algo já amplamente apreciado nos restantes países da Europa.

O orador explicou que inicialmente a descrição, observação e publicação de livros sobre esta temática era realizada por particulares. Salientou o trabalho nesta área de José Vicente Barbosa du Bocage, professor catedrático no museu da escola politécnica de Lisboa, que organizou variadas coleções de animais e elaborou o primeiro grande inventário das espécies que existiam em Portugal e nas antigas colónias. A partir de 1975 criou-se o CEMPA (Centro de Estudo de Migração e Proteção de Aves).  E mais tarde fundou-se a SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves). Estávamos no ano de 1989 quando foi publicado o primeiro atlas nacional que continha inventários de todas as aves do território, sendo coordenado por Rui Rufino.

Saída de Campo na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e VRSA

Mundo digital favoreceu interesse pela ornitologia

No Século XX surgiram muitos observadores de aves e segundo Elias deve-se a fatores como a internet e as fotografias digitais, estes permitiram divulgar informação sobre as aves e atrair muito público. Esta temática deixou de pertencer apenas a um pequeno grupo de aficionados porque passou a ter valor comercial, visto que se criaram empresas de «birdwatching» e estudos de impacto ambiental. Apareceram projetos de monitorização de diversas aves, que são censos de várias espécies (como o exemplo da monitorização da cegonha branca; das aves aquáticas invernantes), com o propósito de compreender como as populações de aves estão a evoluir. Os projetos deram origem à criação de muitas bases de dados online (https://ebird.org/home), onde os observadores de aves podem colaborar fornecendo informação sobre as aves observadas, o que significa que o volume de informação é atualmente muito grande e está disponível quase em tempo real.

Observação de Aves no Algarve começou em 1980

O orador declarou que antes dos nos anos 80, o conhecimento sobre as aves centrava-se principalmente no Porto e em Lisboa, a informação sobre as aves do Algarve apareceu muito mais tarde, possivelmente, devido ao facto dos acessos serem difíceis, de ainda não haver muito turismo, nem grandes centros universitários, como acontecia no Porto, Lisboa e Coimbra. Nos anos 80 a situação alterou-se e começaram a existir estudos e observações das aves nesta região. Foi criada a Associação Rocha em Portimão que começou a orientar muitos estudos na ria de Alvor. Nos anos 90 começaram as campanhas de observação de aves planadoras em Sagres. Segundo o ornitólogo Gonlaço E. no Algarve existem cerca de 406 espécies registadas.

O voo dos patos na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e VRSA

200 espécies de aves ocupam a Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António

A Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António, a primeira reserva natural criada em Portugal Continental [1975],  é constituída por dois esteiros (carrasqueira e lezíria) e é constituída por dois conjuntos de salinas, zonas de sapal, áreas agrícolas e zonas florestais. De acordo com as informações do ICNF  e eBird por aqui existem cerca de 200 espécies na reserva, sendo o «Pernilongo» a espécie símbolo, uma vez que por aqui habita ao longo do ano inteiro.  Neste ecossistema podem ser observadas outras espécies, tais como o alfaiate, o alcaravão, as garças, a perdiz do mar, o colhereiro, o guarda-rios, o frango de água, a águia pesqueira, a poupa, o bico de lacre, entre outros.

A importância da anilhagem de Aves

O ornitólogo convidado para esta sessão também explicou que a anilhagem das aves é um método de investigação baseado na marcação individual das aves com uma anilha metálica que permite conhecer individualmente cada animal. Trata-se de um método que se iniciou em 1889. Na altura as anilhas eram pequenas, os códigos pouco visíveis exigindo a captura da ave. Há cerca de 30 anos foram criadas anilhas grandes, coloridas e em pvc, que permitem ver o código a 40 ou 50 metros de distância, identificando mais facilmente a ave sem ter de capturá-la. É de referir que um observador de pássaros quando vê uma ave anilhada pode contatar o coordenador do projeto ou a CEMPA e informar sobre o paradeiro da ave. Normalmente, estes remetem o historial da ave. Pode-se obter informações sobre os projetos e anilhas correspondentes nos seguintes sites: www.cr.birding.org e https://ebird.org/home. Para os amantes da ornitologia existem, ainda, algumas páginas de facebook como é o caso da Observação de Aves no AlgarveRinged Birds Portugal.

Nunca inicie a arte de fotografar aves selvagens sozinho. Procure quem sabe

Observação de Aves na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e VRSA

Agostinho Gomes, experiente fotógrafo de avifauna e grande conhecedor da matéria, nomeadamente, no Baixo Guadiana, foi responsável pelo workshop dedicado à Fotografia de Aves Selvagens. Um dos alertas que deixou a quem pretende iniciar o seu caminho na arte de fotografar aves é o de que não o deve fazer sozinho, mas sim acompanhado por pessoas amigas experientes, uma vez que é fundamental “conhecer os habitats que nos rodeiam, perceber quais as aves que os frequentam, aprender a identificar as aves e conhecer os seus comportamentos”.

Para uma saída de campo é fundamental levar um guia de aves, binóculos e uma máquina fotográfica com uma lente (exemplos de lentes 70-300 mm ou 150-600 mm). A camuflagem também é importante, existem fatos, tendas de diversos tamanhos, e até camuflagem para a janela do carro, caso se dê o caso das fotografias serem realizadas a partir de uma viatura. Fundamental é também a escolha do local a fotografar que, nomeadamente, deve ser «limpo», ou seja, com pouco arvoredo. O formador recomendou a página Aves de Portugal onde existem diversas informações úteis sobre este tema.

Saída de Campo permitiu observação de 33 espécies de aves 

Flamingos na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e VRSA

Posteriormente, houve a saída de campo às salinas industriais do Cerro do Bufo de Castro Marim. Nesta área houve oportunidade para observar não só a área envolvente, bem como as aves que se alimentavam e descansavam na reserva. A observação foi realizada através de binóculos e telescópios que permitiram avistar cerca de 33 espécies, entre elas: Flamingos; gaivotas; patos; garças; corvos; águia-calçada; tartaranhão-ruivo-dos-pauis; falcão-peregrino; águia-pesqueira, entre outros. Vimos um grande bando de estorninhos a lutar contra uma ave de rapina.

Veja o vídeo deste dia dedicado à ornitologia no Baixo Guadiana

 

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Carmo Costa
Maria do Carmo Costa nasceu no Monte do Estoril, estudou e viveu alguns anos em Lisboa, mas atualmente vive em Espanha. É licenciada em Ciências da Comunicação e tem Mestrado em Relações Interculturais. Estudou inglês e espanhol em institutos de línguas. Frequentou o Curso de Fotografia, realizado pela Associação Um Quarto Escuro de Vila Real de Santo António. Publicou ebooks na Amazon, um de culinária, denominado “Bebidas Quentes e Saborosas: Receitas Caseiras e Fáceis” (versão inglesa e espanhola); publicou também ebooks infantis, tais como, “Aprender os Números com o Putchi” (versão inglesa e espanhola); “Aprender as Formas Geométricas com o Putchi” (versão inglesa e espanhola); “Aprender as Cores com o Putchi”; “As Aventuras de um Copo de Chá”; “Carol, The Flower that Dreamed to Fly”; “Uma Aventura de Natal”. Participa no grupo “Poetas do Guadiana”, onde declama poemas de sua autoria e de outros autores.

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