Há novos paradigmas a ganhar raízes no mundo rural. Protagonistas refletiram em Mértola

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A primeira edição das Jornadas do Mundo Rural de Mértola decorreu nos dias 25 e 26 de Setembro no cine-teatro Marques Duque, no coração da vila-museu alentejana. A organização conjunta uniu as câmaras municipais de Mértola e Alcoutim.

Um programa ambicioso a que correspondeu a resposta do público que aderiu em grande escala ao auditório e onde foi realizada uma ampla reflexão acerca de temáticas envolta da biodiversidade, agroecologia e alimentação. Os conferencistas preencheram um palco que também deu espaço ao devido protagonismo de quem leva a cabo boas práticas nas diversas áreas, superando inúmeras barreiras e personificando duas caracteísticas que foram inúmeras vezes repetidas neste evento: «inovação» e «resiliência». Foi o caso da apresentação da associação Alvelal que nos transportou para o ativo do solo e da água. E no campo da agricultura regenativa Marta e Jacinto Guerreiro contaram à sua experiência no Monte do Seixo. A associação Cumeadas, de Alcoutim, explicou também o seu funcionamento, sendo um exemplo de um sistema agroflorestal organizado que cresceu tanto ao nível de proprietários como de otimização dos solos.

Entre outras comunicações e momentos, [ver programa aqui] teve lugar a apresentação da proposta «Mértola & Alcoutim – rede de soluções demonstrativas de técnicas de agricultura regenerativa». Marta Cortegano, da Associação de Empresários do Vale do Guadiana explicou a importância deste projeto onde se incrementa o princípio de utilização de solos de forma otimizada, respeitando a biodiversidade e potencialidade dos recursos naturais através de uma agricultura regenerativa.

Agricultura sintrópica chega ao Baixo Guadiana

Um dos pontos inovadores apresentado nestas jornadas trata-se da introdução paulatina de um sistema de agricultura sintrópica no concelho de Mértola, desde logo a partir da reflexão à volta do tema ainda desconhecido para muitos, que começam agora a perceber a sua viabilidade no contexto local. O paradigma que começou com o agricultor e investigador suíço Ernest Gotsch, que tem levado a cabo a implementação e divulgação da agricultura sustentável, chega agora ao Baixo Guadiana e promete revolucionar mentalidades. A sintropia caracteriza-se por um sistema de cultivo agroflorestal baseado num conceito que é o oposto à entropia. O brasileiro Filipe Pasini está agora em Mértola para ajudar à mudança de paradigma neste território onde a desertificação é o grande drama, deixando o alerta que “temos de reaprender a pastorear, a utilizar os solos, respeitando a natureza e tendo-a como inspiração. Desde logo temos de respeitar a fotossíntese”.

É de referir que neste painel coube a Alfredo Sendim contar sobre o seu caso prático de agricultura sintrópica na Herdade do Freixo do Meio, de Montemor-o-Novo.

Alimentação: Mértola aposta num novo modelo

As jornadas passaram também por diversas dinâmicas que se debruçaram sobre o tema «Alimentação», nomeadamente os circuitos curtos e estratégias agroalimentares locais. Um dos municípios convidados para estas jornadas foi o de Torres Vedras que deu nota de uma nova abordagem à confeção das refeições escolares e às Instituições Particulares de Solidariedade Social, assumindo que vai recorrer a produção local biológica.

Um dos municípios convidados para estas jornadas foi o de Torres Vedras que deu nota de uma nova abordagem à sustentabilidade da confeção das refeições escolares e às Instituições Particulares de Solidariedade Social, assumindo que vai recorrer a produção local biológica.

«Mértola com Gosto» é um projeto da autarquia anfitriã que trabalha por uma alimentação saudável de base local que “se pretende ambiental, cultura, social e economicamente sustentável”. De acordo com a vereadora Rosinda Pimenta neste projeto “a população sénior de Mértola é tida em linha de conta, e de primeira linha”, bem como “foi quebrada a cadeia de mercado, passando a adquirir-se os produtos a quem os gera localmente”.

Valter Luz, da empresa alcouteneja Luzagro, teve a oportunidade de apresentar o seu caso prático de agricultura em zonas desfavorecidas. Este ano, em Fevereiro, começou a comercialização do seu azeite «Esquisito», tendo vendido já toda a produção do lote disponível. Este é mais um negócio a partir do Baixo Guadiana, cujo investimento no olival na freguesia de Martinlongo começou há cinco bem sucedidos, mas muito suados anos.

Biodiversidade como ativo territorial

Nestas jornadas, e nomeadamente no segundo dia, foi dado o destaque biodiversidade como ativo territorial. Foram apresentadas várias boas práticas, começando pelo Programa Nacional da Politica de Ordenamento do Território (PNPOT) e a valorização do capital natural. “O desafio é perceber o enquadramento legal do  PNPOT para que serve que sinais da e como é que se articula”, principiou, assim, Cristina Garret, diretora de serviços da Direção de Serviços do Ordenamento do Território. “Estamos perante uma infraestrutura verde, que é uma rede que funciona estrategicamente, mas que também precisa de ser pensada, estudada e planeada”. Cristina G. admitiu que a “Lei de bases da política pública dos solos, ordenamento do território e urbanismo, que é de 2014, bem como o seu enquadramento legal, ainda estão em adaptação”, sublinhando que “o importante é desenvolver o país com respeito pelas gerações futuras, sendo esse um dever de todos, e não especificamente de produtores, consumidores, responsáveis políticos ou outros”.

Pela mão do Instituto de Conservação da Natureza (ICNF) foi dado destaque ao Parque Natural do Vale do Guadiana como ativo territorial, sem esquecer os constrangimentos, mas também as potencialidades, nomeadamente ao nível do turismo de natureza. Pedro Rocha fez o enquadramento da riqueza e classificação este parque natural e sem esquecer que este coração verde do território foi o primeiro «palco» escolhido a nível nacional para a integração da espécie de lince ibérico aquando da sua libertação após reprodução em cativeiro. Sabemos hoje que desde então já nasceram 42 exemplares desta espécie altamente ameaçada.

Documentário de cortar a respiração mostra-nos o Parque Natural do Vale do Guadiana

É de salientar que nestas jornadas do mundo rural teve lugar a estreia do documentário «Guadiana Selvagem», de Daniel Pinheiro. Foi a estreia absoluta deste documentário cujo trailer em Espanha já contou com 4 milhões de visualizações pelo facto de ter sido transmitido em horário nobre na TVE. Veja o trailer aqui.

A urgência da multifuncionalidade da floresta 

Ainda no âmbito da biodiversidade, e a parte da Universidade de Coimbra, foi apresentado o projeto «Multiforest», sendo um projeto piloto com financiamento recentemente aprovado que pretende alterar o paradigma de utilização da floresta, apostando na multicultura, reclamando que se olhe para a floresta de uma forma mais holística. “Não estamos a inventar a roda, a multifuncionalidade da floresta já existiu, temos agora de a recuperar porque já percebemos que o modelo da monocultura está esgotado”, afirmou Joana Alves, responsável pelo projeto, e integrante do departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Daqui a dois anos os promotores do Multiforest prometem ter resultados do conjunto de intenções que agora apresentam, mas estão cientes que vão “esbarrar em muitas medidas instaladas”, garantindo que de tudo farão para a valorização e respeito pela biodiversidade através da experimentação de modelos novos onde a multiplicação de utilização dos solos e da atividade económica terão o seu espaço. Olhar para a Floresta como ativo natural, mas também economicamente rentável é o mote deste projeto inédito.

Do lado do público Inês do movimento «Reflorestar Portugal» questionou se projetos como o «Multiforest» vão ter espaço no Parque Natural do Vale do Guadiana. Pedro Rocha do ICNF respondeu relembrando que “temos vindo a perder multifuncionalidade do territorio, o que se tornou inevitável face ao cariz do rendimento das explorações agrícolas. Mas apesar da necessidade de rentabilidade das explorações, tem existido uma incapacidade do território em tornar as necessidades em instrumentos concretos de atuação”. E rematou, dizendo, que “tem de haver um movimento cultural de conhecimento de território e dos seus recursos”.

Programa de Desenvolvimento Rural e a sua complexidade e inadaptação à realidade

Na sequência da reflexão acerca dos mecanismos de apoio a toda uma mudança de paradigma, ou tão-simples resposta às ambições dos empresários, Joana Costa, moderadora deste painel e também integrante do  departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, defendeu que “o PDR [Programa de Desenvolvimento Rural] tem de incluir uma discussão mais alargada, tem de prever a multifuncionalidade que a floresta tem vindo a perder ao longo do tempo”, lamentando que este programa de apoio ao mundo rural “não reflita a realidade”, sendo que nesta altura “estamos a correr atrás do prejuízo”, denunciando que este programa ” é de longe o mais complexo de todos os mecanismos de financiamento”. A docente lembrou que essa complexidade desmotiva muitos produtores que precisam de mecanismos financeiros rápidos e eficientes. Sem esquecer de dar nota dos “inúmeros resilientes que apesar de tantas dificuldades lutam todos os dias neste território”, e lembrando que “há cada vez mais pessoas a deslocar-se para estes territórios desertificados e de baixa densidade”, Joana Costa alertou para a necessidade “urgente da renovação de mecanismos de desenvolvimento e de apoio que se adaptem para a implementação de medidas de mitigação da desertificação e despovoamento do Interior do país”. Terminando com uma nota de otimismo, esta docente da Universidade de Coimbra lembrou que agora o PDR, apesar de ter diretrizes europeias, é desenhado país a país e que por isso poderá haver maior oportunidade de aceder ao programa de financiamento comunitário.

Por sua vez, Cristina Garret tem a expectativa que o novo modelo de governação do PNPOT se adapte à nova visão de políticas públicas, depositando esperança no, entretanto criado, «Observatório do Território» que em 2019 deverá apresentar uma avaliação que possa refletir o real impacto e sucesso do PNPOT.

“Obrigado por continuarem a lutar teimosamente por este território”

Coube aos autarcas de Alcoutim (Osvaldo Gonçalves) e Mértola (Jorge Rosa), organizadores deste evento, fazerem um balanço dos dois dias de trabalho [e que após esta primeira edição em Mérotola passará a ter uma periodicidade semestral, intercalando entre Alcoutim, em Março e Mértola, em Setembro]. “Alcoutim e Mértola sofrem muitos dos mesmos problemas e em conjunto poderemos de forma mais sustentada superar muitas das dificuldades. É com essa convição que iniciamos esta parceria numas jornadas que são sempre bastante enriquecedoras pela mostra que representam daquilo que é a resiliência do capital humano, mas também das potencialidades que também temos neste território”, disse ao nosso jornal o presidente da câmara municipal de Alcoutim, Osvaldo Gonçalves.

No final destas jornadas o sentimento de dever cumprido era unânime, tanto quanto a necessidade de continuar a refletir, trabalhar e persistir num caminho de combate ao despovoamento e desertificação do território. Jorge Rosa agradeceu o convite para o município que lidera integrar o «Multiforest» e lembrou que o Parque Natural do Vale do Guadiana candidatou-se à classificação de GeoParque. “O Pulo do Lobo terá no futuro também vários pontos de observação, que não se assemelhando aos passadiços do Paiva, serão, certamente, infraestruturas que permitirão maior fruição e valorização deste local”.

Por último, ficou o recado ao Governo para que o “PNOT tenha uma visão de território que atualmente não está identificada, de modo a o PROT [Plano de Ordenamento do Território] beba desse conceito e haja a necessária diferenciação das regiões”.

Participaram nestas jornadas dois secretários de Estado: Miguel Freitas, das Florestas e Desenvolvimento Rural, e Célia Ramos do Ordenamento do Território e de Conservação da Natureza.Os responsáveis deixaram mensagens de regojizo pelos ativos humanos e naturais neste território e garantiram levar longe as mensagens recebidas nestas jornadas do mundo rural de Mértola, onde a temática das alterações climáticas trespassou os inúmeros momentos de debate e reflexão.

Veja mais fotos destas jornadas aqui.

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Susana Helena De Sousa
Formação Superior em Jornalismo (Carteira Profissional 9621): Especialização em Imprensa Escrita pelo Centro Nacional de Formação de Jornalistas (CENJOR) Formação media pela Representação da Comissão Europeia em Portugal Experiência em Jornalismo: Rádio (Voz D'Almada, PAL FM, Guadiana FM), Televisão (TVI, AXN, RTP, Canal História) e Imprensa Escrita (Jornal de Setúbal, Semanário O Algarve, Jornal i, Jornal do Baixo Guadiana); Tese de Licenciatura Bi-Etápica: «Serviço Público de Televisão», (publicação com entrevista a Carlos Pinto Coelho) Co-produção, realização e apresentação do programa de Rádio «Se Dúvidas Existem...», do Núcleo de Estudos e Intervenção Psicolõgica de VRSA Co-produção, realização e apresentação do programa «Viver Aqui», do Núcleo de Imigração da Cruz Vermelha Portuguesa de VRSA para o Alto Comissariado para o Diálogo Intercultural Assistente de Realização para Televisão Produtora para Televisão Escrita para Reportagens Televisivas Escrita de Documentário para TV «O Contrabando no Baixo Guadiana» Escrita do texto filme documental «Um Dia na Santa Casa», de Eduardo Soares Pinto Formação Avançada em Dança Contemporânea (CIRL) Formação Inicial em Teatro (TAS, Teatro O Elefante) Formação Inicial Interpretação para Televisão (Aloysio Filho pela ACT) Participação em antologia poética «5.50» (Poetas do Guadiana) Escrita de prefácio para obra editada (Os Poetas do Guadiana nos meios de comunicação social) e outra obra inédita Autora convidada do livro de contos «Ruas» de Pedro Oliveira Tavares e João Miguel Pereira Revisão de Livro de Contos inédito de Mouji Soares Curandoria de exposição de fotografia de Eduardo Soares Pinto, Espanha Co-organização da exposição internacional de arte «Minha Fukushima» na Eurocidade do Guadiana, da Peace and Art Society Organização da Exposição «Aline´s Project» em VRSA, da Peace and Art Society Apresentação de Galas Moderação de Debates e Tertúlias Apresentação de Livros Organização de eventos Co-fundadora do Eco&Design Hotel «Monte do Malhão» Co-fundadora da Mostra Internacional de Cinema «FRONTEIRAS» Voluntariado para a área da comunicação em IPSS's

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