Escavações Cacela Velha: cientistas esperam maior empenho do Ministério da Cultura para investigação e divulgação nas escolas

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Cacela Velha voltou a receber um conjunto de trabalhos de escavação arqueológica na área do Poço Antigo, sítio onde se localizam o antigo bairro islâmico, a possível ligação ao porto e a sequente necrópole cristã. A campanha terminou esta terça-feira, 31 de julho. Cristina Tété Garcia, uma das coordenadoras da campanha, lembrou-nos que “estas escavações acontecem 17 anos após as últimas (2001) e 20 anos depois da primeira campanha (1998)”. O objetivo das mais recente campanha, que foi levada a cabo em regime de parceria entre várias entidades, pretendeu reanalisar os vestígios arqueológicos existentes, delimitar as áreas de ocupação e identificar novas zonas de testemunhos arqueológicos. Uma iniciativa levada a cabo pela Universidade do Algarve e pela Simon Fraser University (Canadá), em que os alunos vêm alunos vêm estudar o ossos humanos no âmbito da antropologia física. E o que vem a seguir? Ideias e projetos não faltam; haja viabilidade financeira para dar continuidade à investigação e iniciar uma divulgação assertiva junto da comunidade escolar, tal como nos adianta Cristina Tété Garcia.
Fotos: Carmo Costa

 

Cristina Tété Garcia (à esq.ª) em entrevista ao Jornal do Baixo Guadiana no início da campanha de escavações em Julho 2018

O que se tornou evidente com as escavações arqueológicas em Cacela Velha

Cristina Tété Garcia (CTG): Percebe-se, claramente, que Cacela Velha não é só aquele reduto no alto, mas sim algo que se expande na área e onde temos um bairro islâmico fora das muralhas, mostrando que na época almóada este lugar ganhou uma importância grande ligada à navegação marítima. Temos um bairro muito próximo da ria (Ria Formosa), junto da ribeira, da foz (do rio Guadiana) e os materiais que saíram já das escavações aqui feitas são preciosos e mostram-nos que estes habitantes tinham uma relação normal com as outras povoações da costa da Andaluzia. Trata-se de materiais que vinham de Sevilha e de Cádiz (Espanha), mas também de Silves.

Cacela Velha estava numa posição central!?

CTG: Exato; enquadra-se nesta rede costeira que deu um grande incremento a esta zona e que teve maior dinâmica graças ao seu porto. Foi a altura em que Cacela teve maior dinâmica, falamos da época almóada, antes da conquista cristã; mais especificamente na última fase da ocupação islâmica – desde a segunda metade do sec XII até à conquista. E o que aqui temos neste bairro são vestígios dessa população.

Esta vila foi importante para a conquista cristã…

CTG: Cacela era uma praça forte importante para isolar o resto do Algarve. A partir do momento em que aqui o castelo foi conquistado as populações algarvias renderam-se.

Os conhecimentos que me relata e que vos permite dar continuidade às investigações  foram adquiridos graças às anteriores campanhas de escavações. Porque é que foram precisos 17 anos para voltarem ao terreno? 

CTG: Em 1998 e 2001 foram anos de grandes campanhas de escavação e voltámos apenas 17 anos depois porque não houve condições financeiras para o fazer antes face à necessidade de um grande investimento. Entretanto, foi preciso estudar o que foi escavado com a ajuda de colegas da câmara municipal de Vila Real de Santo António, da Universidade de Coimbra  e da Universidade do Algarve que nesta campanha faz parte da coordenação. Foi também necessário parar um pouco. … Entretanto, através da Direção Regional de Cultura do Algarve publicou-se a Carta de Património que é a primeira publicação onde constam resultados da prospeção geral da freguesia, que nos ajuda a perceber a toponímia, o que nos dizem os solos, conhecermos melhor ocupação desta área. Também foi necessário falar com as pessoas… Não se pode só acumular o material porque este precisa de ser estudado. A parceria com a câmara municipal de Vila Real de Santo António foi fundamental para a seleção, lavagem, marcação, inventariação dos cerca de 8 mil fragmentos que recolhemos nas anteriores campanhas.

E onde está todo esse material?

CTG: Está todo em Cacela, no Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela, em Santa Rita; é para lá que vai o material recolhido nas escavações de Cacela Velha. Já os esqueletos estão no Instituto de Antropologia da Universidade de Coimbra.

Este ano retomaram as escavações… 

CTG: Sim, continuamos a escavar a necrópole. Os estudos permitiram-nos saber que se trata de uma necrópole muito antiga que remonta aos inícios da nacionalidade. Aqui encontramos, provavelmente, os primeiros povoadores cristãos após o abandono pela comunidade islâmica… Os documentos dizem-nos que esta necrópole funcionou até ao século XVI o que é uma longevidade grande. Nos documentos antigos está referido que Cacela Velha era um local de romaria e que foi sempre um lugar especial para as populações rurais da população do Baixo Guadiana.

Não nos podemos esquecer que naquela altura um castelo possuía um território sobre o qual tinha jurisdição; e no período islâmico o território iria até ao Rio Vascão (Mértola, Alentejo) e abrangeu a certa altura Ayamonte (Espanha). Ou seja, o rio Guadiana estava incluído e teve aqui uma força e um poder sobre este território relevantes. Veio reforçar a identidade raiana.

Já nessa altura o território Baixo Guadiana na sua figura mais transfronteiriça era uma realidade.

CTG: Sem dúvida, porque Tavira era a urbe, a cidade do sotavento. Mas as populações rurais desta zona serrana era em Cacela que centralizavam o seu culto e o seu ponto de encontro. Cacela só vem mostrar que sempre houve essa relação profunda com o outro lado do Guadiana.

E depois de tantos anos de dedicação por parte da equipa, que vai alargando com a continuidade das escavações, pelo que percebe, o que espera que seja feito com todo o conhecimento adquirido também com esta terceira campanha? 

CTG: Agora depois desta campanha espera-se maior empenho da tutela: do Ministério da Cultura. Na Direção Regional da Cultural do Algarve estamos a fazer um grande esforço para desenvolver este projeto, mas precisamos de mais meios. A nossa vontade e capacidade enquanto cientistas já nos permite avançar para a criação de uma exposição com divulgação junto das escolas e da população. Queremos montar uma exposição para divulgar Cacela, caso contrário fica tudo restrito aos cientistas, e Cacela merece muito mais.

Falamos sempre da necessidade de maior investimento no projeto…

CTG: Estamos na fase de submissão de apresentação de várias candidaturas. Desde logo para continuar a investigação científica noutros moldes: laboratoriais, análises químicas que precisam de recursos financeiros e algumas, inclusive, têm de ser realizadas em laboratórios no estrangeiro. Mas também queremos iniciar a produção de uma exposição itinerante para que estas escavações e investigações tenham total sentido porque a comunidade tem muita importância e precisa de ter acesso a este riquíssimo conhecimento.

«Muçulmanos e Cristãos em Cacela Medieval: território e identidades em mudança». Como aconteceu a campanha de 2018?

O cerne dos trabalhos de escavações em 2018 foi a transição entre a ocupação medieval islâmica e medieval cristã, com foco nas alterações operadas e nas continuidades perpetuadas. O projeto «Muçulmanos e Cristãos em Cacela Medieval: território e identidades em mudança» tem também um objetivo formativo, sendo o seu alvo principal os jovens investigadores nas áreas de arqueologia, património cultural e antropologia. De forma a aumentar a proximidade dos estudantes com a investigação, o plano contou também com a participação de um grupo de alunos da Escola Secundária de Vila Real de Santo António.

Todas as ações foram acompanhadas por um programa de divulgação e valorização do património histórico-arqueológico de Cacela Velha, esperando-se a renovação e ampliação das infraestruturas de apoio a visitas aos sítios arqueológicos de Cacela-a-Velha e o estabelecimento de medidas de proteção e musealização. Durante um mês, as escavações arqueológicas no sítio do Poço Antigo, em Cacela Velha, puseram a descoberto a extraordinária riqueza patrimonial e histórica desta vila do concelho de Vila Real de Santo António. Nesta campanha arqueológica, foram exumados 10 esqueletos humanos pertencentes à geração dos povoadores cristãos da região, após a conquista do Algarve aos mouros, em 1249. Somam-se assim 66 sepulturas escavadas e 86 indivíduos identificados neste cemitério da época medieval. Caso insólito, a descoberta de um gato depositado no cemitério, cujo significado será esclarecido por futuras análises laboratoriais.

Sob esta necrópole, continuou a colocar-se a descoberto o bairro almóada, dos séculos XII e XIII. Assim, foram escavadas duas casas de pátio interior, circundados por compartimentos. Nestes espaços, após o abandono das famílias que ali viveram, verificou-se a existência de diversos níveis de lareiras, restos alimentares e lixeiras domésticas, que podem testemunhar a estadia ocasional de viajantes ou a ocupação temporária por habitantes locais. Foi ainda descoberta uma rua principal, que poderia atravessar este conjunto habitacional, ligando a zona portuária a uma das entradas do bairro.

Os trabalhos arqueológicos foram coordenados por Cristina Tété Garcia (Direção Regional de Cultura do Algarve) e Maria João Valente (Universidade do Algarve). Hugo Cardoso (Universidade Simon Fraser) coordenou os trabalhos de bioarqueologia.

Participaram, em regime de voluntariado, 25 alunos da Universidade do Algarve, Faculdade de Letras do Porto, Universidade de Huelva e escolas secundárias de Vila Real de Santo António e Pinheiro e Rosa (Faro). A estes, juntaram-se 16 alunos canadianos, da Simon Fraser University. Neste campo-escola de arqueologia, puderam aprender e praticar a escavação de materiais e estruturas medievais, bem como de ossadas humanas no contexto da necrópole medieval descoberta. O Poço Antigo situa-se fora do perímetro amuralhado de Cacela, em Zona Especial de Proteção do Núcleo Histórico de Cacela-a-Velha, classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1996.

Os trabalhos tiveram a duração de quatro semanas e foram antecedidos de uma semana de formação, na UALG, com especialistas em Arqueologia Medieval, Zooarqueologia, Geologia, História do Algarve e Bioarqueologia. Finalizada esta campanha arqueológica, segue-se a limpeza, inventário e estudo dos materiais, que ficarão depositados na Universidade do Algarve e no Centro de Informação e Interpretação do Património de Cacela do Município de Vila Real de Santo António. Está previsto realizar uma nova campanha arqueológica no ano de 2019.

É de referir que no âmbito de uma abertura desta campanha de 2018 à comunidade houve durante a mesma lugar para uma sessão dedicada à temática no arquivo histórico António Rosa Mendes, em VRSA, e um dia aberto à zona de escavações.

(D.ta para esq.ª) Maria João Valente e Cristina Tété Garcia na sessão no Arquivo Histórico António Rosa Mendes, em VRSA
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Susana Helena De Sousa
Formação Superior em Jornalismo (Carteira Profissional 9621): Especialização em Imprensa Escrita pelo Centro Nacional de Formação de Jornalistas (CENJOR) Formação media pela Representação da Comissão Europeia em Portugal Experiência em Jornalismo: Rádio (Voz D'Almada, PAL FM, Guadiana FM), Televisão (TVI, AXN, RTP, Canal História) e Imprensa Escrita (Jornal de Setúbal, Semanário O Algarve, Jornal i, Jornal do Baixo Guadiana); Tese de Licenciatura Bi-Etápica: «Serviço Público de Televisão», (publicação com entrevista a Carlos Pinto Coelho) Co-produção, realização e apresentação do programa de Rádio «Se Dúvidas Existem...», do Núcleo de Estudos e Intervenção Psicolõgica de VRSA Co-produção, realização e apresentação do programa «Viver Aqui», do Núcleo de Imigração da Cruz Vermelha Portuguesa de VRSA para o Alto Comissariado para o Diálogo Intercultural Assistente de Realização para Televisão Produtora para Televisão Escrita para Reportagens Televisivas Escrita de Documentário para TV «O Contrabando no Baixo Guadiana» Escrita do texto filme documental «Um Dia na Santa Casa», de Eduardo Soares Pinto Formação Avançada em Dança Contemporânea (CIRL) Formação Inicial em Teatro (TAS, Teatro O Elefante) Formação Inicial Interpretação para Televisão (Aloysio Filho pela ACT) Participação em antologia poética «5.50» (Poetas do Guadiana) Escrita de prefácio para obra editada (Os Poetas do Guadiana nos meios de comunicação social) e outra obra inédita Autora convidada do livro de contos «Ruas» de Pedro Oliveira Tavares e João Miguel Pereira Revisão de Livro de Contos inédito de Mouji Soares Curandoria de exposição de fotografia de Eduardo Soares Pinto, Espanha Co-organização da exposição internacional de arte «Minha Fukushima» na Eurocidade do Guadiana, da Peace and Art Society Organização da Exposição «Aline´s Project» em VRSA, da Peace and Art Society Apresentação de Galas Moderação de Debates e Tertúlias Apresentação de Livros Organização de eventos Co-fundadora do Eco&Design Hotel «Monte do Malhão» Co-fundadora da Mostra Internacional de Cinema «FRONTEIRAS» Voluntariado para a área da comunicação em IPSS's

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