Crise na imprensa passa (também) pela falta de leitores e receitas deficitárias

0
65

Foram diversas as conclusões tiradas na tertúlia que decorreu esta quinta-feira à tarde na Biblioteca Municipal António Vicente Campinas, em Vila Real de Santo António. O tema  centrou-se no panorama e importância da informação local e contou com o debate de ideias de diretores de jornais, jornalistas e diversos consumidores de informação.

Há uma crise nos jornais no Algarve porque desde logo porque “são muito baixas as receitas de publicidade”, não havendo “qualquer visão do setor político nem económico locais”, frisou, lembrou Fernando Reis , diretor há 35 anos do Jornal do Algarve [um semanário que já cumpriu 61 anos de existência]. A mulher, e editora no mesmo jornal, garantiu que “é titânico o esforço feito pela direção para manter de pé o Jornal do Algarve”.

Lamentando a falta de iniciativa pública e privada para aposta no investimento na imprensa regional, Fernando Reis lembrou que há cerca de 10 anos a esta parte o Estado “acabou com a distribuição da publicidade institucional pelos jornais regionais”, lembrando que este “era o suporte financeiro da sobrevivência dos títulos”.

“Infelizmente, os empresários também nunca se lembram dos jornais, apenas quando têm problemas e se querem queixar”, lamentou Luís Travassos do Jornal do Algarve, apelando para que haja uma “abertura de mentalidade” do setor empresarial para que se vislumbre uma maior aposta na imprensa.

Emídio Santos, diretor do jornal «Algarve Primeiro» corroborou destas afirmações e lamentou que, nomeadamente, e pela importância que o setor turístico adquire,  “os diretores de marketing dos grupos hoteleiros instalados no Algarve não tenham a visão suficiente  para perceber que os nossos turistas quando escolhem o destino também vão querer consumir na imprensa local e regional a informação da região para ter em conta a oferta cultural e de lazer disponível. Cabe aos jornais congregar e seleccionar a informação, mas há a ideia errada dos marketeers de que os turistas não lêem os nossos jornais e que por isso apenas faz sentido investir na publicidade fora da região”.

Como dar a volta ao assunto? Com muita resiliência. Foi o testemunharam o «Jornal do Algarve» (sede em Vila Real de Santo António) e o «Algarve Primeiro» (sede em Olhão), desde logo.

Jornal do Baixo Guadiana apenas faz sentido se existir em papel

Carlos Luís Figueira, anterior diretor do «Jornal do Baixo Guadiana», título cuja propriedade é da associação ODIANA, lamentou que este jornal tenha deixado de ser publicado em versão papel (Abril de 2016), considerando que “o formato digital para o nosso território não tem qualquer impacto face ao público-alvo que é bastante envelhecido”.

Estes antigo responsável pela editoria do jornal não teve dúvidas ao afirmar que “o Jornal do Baixo Guadiana apenas faz sentido se existir desde logo em papel”, lembrando a importância de “coesão territorial que este periódico perdeu quando se converteu num formato digital”.

Carlos Luís Figueira referiu, ainda, a importância de a par de um departamento de informação estar associado uma forte componente comercial, de modo a tornar viável o projeto, partilhando das mesmas necessidades dos outros diretores presentes.

A diretora-executiva da ODIANA, Sílvia Madeira, que marcou presença também nesta tertúlia deixou a garantia que “a Odiana está a estudar a viabilidade de conciliar a versão papel com a versão online do Jornal do Baixo Guadiana”, sendo uma abordagem que está a ser feita de forma “cautelosa, mas com sentido de dever e informação inclusiva”.

E os leitores onde estão?

Mas para além da carência acentuada da receita, outro dos fenómenos negativos que afetam a imprensa regional passa pela falta de leitores. “Precisamos de leitores e leitores mais críticos”, disse José Cruz, jornalista, proprietário do «Guadiana Digital» e percursor do jornalismo digital no Algarve (finais dos anos 90 do século passado).

No que diz respeito às diversas versões possíveis dos jornais José Cruz é defensor de uma conciliação entre o papel e o digital, “porque o futuro passará, invariavelmente, pelo digital”, sublinhou. Insistiu ainda, que “as camadas mais jovens aderem mais facilmente ao online” e, por isso, “há que estar preparado para essa franja da sociedade que apresenta novas tendências”.

Pedro Tavares e Maria José Capela, ambos professores, referiram que se mostra necessário insistir na leitura nas escolas, mas também de criar novas formas dos órgãos de informação chegarem aos mais novos. “Os media fazem parte da matéria curricular, mas é necessário encontrar novas formas de fazer com que os jovens consumam a informação”, desafiou esta professora.

De referir que a falta de leitores, as baixa receita de publicidade, bem como a escassez do papel que acresce custos na hora da impressão e os parcos recursos humanos das redações, tópicos que também foram referidos, não são problemas apenas da esfera da imprensa local e/ou regional, mas antes fazem parte de uma conjuntura à escala nacional.

Devido ao facto de estarem presentes nesta tertúlia apenas diretores de jornais a tertúlia focou-se, sobretudo, no panorama da imprensa escrita.

 

Publicidade
Partilhar

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.