Sermão aos bem-aventurados*

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“Imagine

(…) You may say

I´m a dreamer

But I´m not the only one

I hope some day

You will join us

And the world will live as one”

 John Lennon

 

Agora que estamos em época natalícia e à beira de um novo ano, permitam-me que dirija um “sermão aos bem-aventurados” buscando inspiração nas palavras e na música de John Lennon “Imagine”.

Imagine-se uma sociedade onde a atividade humana foi concebida e organizada para promover o bem-estar dos cidadãos, a sua saúde física e psicológica, as boas relações de vizinhança e sociabilidade, em íntima associação com o meio ambiente envolvente, numa perspetiva socio-ecológica em que o papel da paisagem e dos ecossistemas é determinante para ordenar o território e reconfigurar as relações cidade-campo.

Imagine-se uma sociedade que atribui prioridade política elevada à constituição de uma reserva estratégica alimentar, promovendo, por essa via, o renascimento de múltiplas formas de agricultura, convencionais, biológicas e ecológicas, e uma ocupação mais diversificada das várias parcelas do território nacional, em íntima associação com estratégias agroflorestais bem conduzidas, no quadro de sistemas produtivos locais mais inovadores e de maior valor acrescentado.

Imagine-se uma sociedade que atribui prioridade política elevada à promoção de uma floresta de fins múltiplos, através de uma oferta de bens e serviços diversificada que vai desde o sequestro de carbono até à biomassa energética com passagem obrigatória pela prestação dos serviços ecossistémicos que são essenciais à qualidade de vida de todos os seres vivos.

Imagine-se uma sociedade que atribui prioridade política elevada às políticas do mar e dos recursos marinhos, numa estratégia de fins múltiplos e num continuum natural que vai da serra aos fundos oceânicos.

Imagine-se uma sociedade que atribui prioridade política elevada à construção de uma base energética renovável com a formação de núcleos integrados e descentralizados de produção energética, em redes integradas de microgeração, e em que o consumidor se torna, também, produtor de energia.

Imagine-se uma sociedade que atribui prioridade política elevada à formação de uma malha policêntrica de cidades médias que ajudem a reequilibrar o território, cidades-território perfeitamente integradas na paisagem e nos ecossistemas envolventes e em que as respetivas estruturas ecológicas municipais desempenham um papel central no desenho do interface cidade-campo: circulares verdes, corredores ecológicos de penetração, parques agroecológicos municipais, núcleos bioclimáticos, sistemas integrados de microgeração.

Imagine-se uma sociedade que atribui prioridade política elevada à reinvenção do ambiente urbano onde a arquitetura paisagística e a engenharia biofísica podem ajudar a restaurar o metabolismo vital da cidade, a renaturalizar a circulação de alguns dos seus elementos essenciais à vida, a imaginar jardins multifuncionais decorativos, aromáticos e biodepuradores, por meio dos quais se aprende a respeitar os ciclos da natureza, numa atmosfera de conforto, beleza e saúde espiritual.

Imagine-se uma sociedade constituída por cidades que fazem dos seus programas de sustentabilidade (ambiente, educação e saúde pública) a sua principal razão de ser: a importância da paisagem e dos ecossistemas na qualidade de vida dos cidadãos e, neste quadro, o restabelecimento de mosaicos paisagísticos e habitats fragmentados, a adoção de uma política local de redução, reciclagem e reutilização de resíduos e de programas de poupança e eficiência energética que são a forma de energia mais barata disponível, a recuperação de linhas de água impermeabilizadas e de solos agrícolas urbanizados, a restauração de bosquetes maltratados, o reenquadramento paisagístico da edificação dispersa assim como dos logradouros inóspitos e da agricultura urbana existente, por último, a abordagem a fazer ao espaço de articulação e mobilidade periurbano que pode gerar uma nova estrutura de oportunidades, em particular, na forma com se programam os equipamentos coletivos, os espaços verdes e os corredores ecológicos e suas ligações com as explorações agrícolas, os sistemas agroflorestais e as amenidades rurais que servem o turismo na sua área de influência.

Imagine-se uma sociedade que atribui uma prioridade política elevada aos valores do ordenamento do território e urbanismo, onde os equipamentos coletivos pesados e com maior impacto físico, expressão material do poder político, não sejam os atores principais do desenho urbano mas onde, seguindo uma estratégia que visa combater a monotonia dos subúrbios e a monofuncionalidade dos espaços, se procede à conversão progressiva de uma cidade artificialmente zonada e compactada numa cidade que respeita a morfologia dos elementos naturais e os valores cénicos da paisagem humanizada.

Imagine-se uma sociedade onde as áreas de paisagem protegida não são santuários ou manifestações corporativas de escola mas, antes, espaços integrados de produção, conservação e recreação, segundo uma conceção de ordem geral que considera a biodiversidade, os ecossistemas e os serviços ecossistémicos como elementos essenciais à vida em toda a comunidade, que devem ser respeitados por todos os sistemas de produção e não apenas por aqueles que devido à sua especial fragilidade estão acantonados em áreas de paisagem protegida, enquanto, ao mesmo tempo, se age, levianamente, sobre recursos naturais que são imprescindíveis à renovação do stock de capital natural.

Imagine-se, finalmente, uma sociedade onde toda a atividade humana está concebida e organizada para promover uma economia de baixa entropia ou intensidade carbónica, assente num baixo consumo de capital natural, de matéria e energia, e no uso intensivo de trabalho e conhecimento, construindo, com base numa economia da prosperidade, uma nova ecologia humana.

 

*Extractos do meu livro “A Grande Transição” (2011), Edições Colibri.

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António Covas
Doutorado em assuntos europeus pela Universidade de Bruxelas Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve Vários livros sobre os temas europeus, as políticas do território e do desenvolvimento rural.

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