O Negócio Digital e a Smartificação do Território

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Está em curso a denominada Grande Transformação Digital, se quisermos, a grande mutação para os sistemas automáticos e a inteligência artificial em sentido lato. Nesta grande transição, é preciso distinguir, em primeiro lugar, a emergência do “negócio digital” que irá acumular excedentes na fase ascendente da revolução digital, em segundo lugar, a criação dos territórios inteligentes e criativos que aproveitarão as tecnologias da informação e da comunicação para construir territórios-rede de geometria variável (Covas e Covas, 2014).

  1. A emergência do “negócio digital”

Que ninguém se surpreenda, a transformação digital aguçará o apetite do capitalismo convencional com a extração de mais-valias fabulosas que se formam na fase ascendente do ciclo económico digital. Muitas das entradas no “negócio digital” traduzem uma relação direta entre desmaterialização, desintermediação e eficiência de processos e procedimentos. Para ilustrar este “negócio digital”, basta pensar nas transações vertiginosas e na valorização em redor das start-up. As entradas para o “negócio digital” são muito variadas:

Uma primeira entrada diz respeito aos sistemas gerais de informação, privados e públicos, nas relações com o consumidor, o utente e o cidadão em geral; já aí estão em pleno funcionamento e em constante evolução tecnológica;

Uma segunda entrada diz respeito à agricultura de precisão e, de uma maneira geral, aos sistemas automáticos das atividades industriais e dos serviços, com uma presença crescente dos processos de robotização.

Uma terceira entrada diz respeito à “smartificação das cidades” (Smart City), desde os sistemas de transporte convertidos em sistemas de mobilidade até aos sistemas mais clássicos de distribuição em rede.

Uma quarta entrada diz respeito aos sistemas automáticos no âmbito da “internet das coisas” (IOT), onde praticamente nada escapa aos dispositivos de monitorização, sejam sensores, chips ou câmaras de vigilância; neste caso em concreto, podemos dizer que a nossa rastreabilidade é praticamente total e o “Big Data” uma ameaça permanente à nossa privacidade individual.

Uma quinta entrada diz respeito às alterações climáticas e às profundas transformações nos ciclos vegetativos tal como resultavam, até aqui, da normal sucessão das estações do ano; o ajustamento no ciclo vegetativo e as operações de mitigação e adaptação obrigam a usar sistemas de aviso e monitorização cada vez mais sofisticados. O fogo, a seca e a chuva torrencial serão, doravante, uma presença constante que necessita de ser antecipada e monitorizada.

Uma sexta entrada diz respeito aos sistemas vivos e aos planos verdes, se quisermos, à “smartificação verde da paisagem global”, na linha dos planos verdes do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles; trata-se essencialmente de monitorizar a condição dos sistemas vivos desde a linha de água e a vegetação ripícola até à unidade de paisagem, com passagem pelos corredores verdes e os mosaicos paisagísticos.

Uma sétima entrada diz respeito à modernização digital das organizações administrativas, com uma enfâse especial nas autarquias locais; neste caso, a desmaterialização e a desintermediação irão alterar a relação entre o “back office e o front office” do município que, a breve prazo, estará cada vez mais próximo de uma loja do munícipe; ao mesmo tempo, a interação digital fará germinar uma nova geração de “utilities” municipais.

Finamente, a última entrada diz respeito à formação de comunidades de auto-governo (os territórios-rede), nascidas de uma história comum, mas, também, e cada vez mais, de comunidades virtuais criadas por plataformas colaborativas e que, em determinado momento, decidem converter uma comunidade online numa comunidade territorial offline.

Como se observa, e o elenco peca por defeito, a margem de progresso do negócio digital nos próximos anos é deveras extraordinária e tanto mais quanto a digitalização empresarial progredir ao sabor de interesses particulares que não zelam propriamente pelos valores e bens comuns do ordenamento territorial.

 

  1. Sociedade do conhecimento e territórios inteligentes e criativos

 Na sociedade do conhecimento o meu pressuposto é simples: todos os territórios têm uma inteligência coletiva tácita ou implícita que os seus principais representantes podem explicitar e desenvolver se forem capazes de resolver os seus principais défices de conhecimento. Não há, portanto, nenhum fatalismo ou determinismo especial com um território, simplesmente, na sociedade do conhecimento a origem dos problemas reside no défice de conhecimento.

A grande questão reside em saber até que ponto um determinado território é um “território-desejado” que mobiliza entusiasmo e adesão para um projeto de futuro. Se, ao contrário, um território for percebido como um mero recipiente ou recetáculo, um continente sem conteúdo, a inteligência emocional e a inteligência racional nunca se encontrarão para um grande projeto de futuro, isto é, não haverá inteligência coletiva territorial suficiente e capaz de reduzir os défices de conhecimento já conhecidos. Nestas condições muito dificilmente conseguiremos um território inteligente e criativo.

Neste contexto, a intensidade-rede ou conexão digital reveste-se de alguma ambiguidade. Por um lado, a conexão digital reduz a invisibilidade do problema, trá-lo para o espaço público, faz ruído à sua volta, chama a atenção do poder político. Nessa exata medida, o poder político fica confrontado com as suas próprias responsabilidades. Por outro lado, as comunidades online precisam ainda de fazer prova de vida, isto é, não podem tratar a realidade como um mero epifenómeno, como uma série de eventos que se consome com grande voracidade. Dito de outro modo, as comunidades virtuais devem sair do “modo representação” ou do “modo personagem” se quiserem que o seu protesto virtual seja convertido em ação real e efetiva.

Na sociedade do conhecimento como criar, então, um território inteligente e criativo, um território-rede dotado de uma inteligência coletiva territorial onde o todo é maior do que a soma das partes? Se quisermos, como criar uma estratégia de “smartificação do território”? Eis, pois, o decálogo da “smartificação”.

Em primeiro lugar, é necessário encontrar uma “comissão promotora” que seja capaz de suscitar o entusiasmo inicial para a ideia de um território-rede (T-R),

Em segundo lugar, é necessário delimitar um “território de partida” que possua alguma marca distintiva a partir da qual possa irradiar a primeira vaga de mobilização e interesse,

Em terceiro lugar, é necessário eleger os “sinais distintivos territoriais”, a distinção territorial, e fazer, se for caso disso, um primeiro ajustamento nos limites do T-R,

Em quarto lugar, é necessário esboçar, a partir dos sinais distintivos territoriais, uma “iconografia do T-R” que seja a base narrativa para uma estratégia de comunicação e marketing,

Em quinto lugar, é necessário constituir o “ator-rede”, que será o pivot fundamental da realização do programa do T-R,

Em sexto lugar, é necessário elaborar o “mapa gravitacional” do T-R, isto é, o mapeamento dos atores principais envolvidos no projeto,

Em sétimo lugar, é necessário conceber uma “plataforma colaborativa” para aumentar a interação e a conexão colaborativas entre todos os parceiros do projeto,

Em oitavo lugar, é necessário elaborar “os conteúdos programáticos e o programa de ação” para a operacionalização do T-R,

Em nono lugar, é necessário eleger os “embaixadores do T-R” que serão os porta-vozes da distinção territorial do T-R,

Em décimo lugar, é necessário criar uma “coreografia cénica” para o T-R através de uma estratégia apropriada de marketing digital.

As duas fases iniciais são fundamentais e, em especial, a seleção dos sinais distintivos territoriais (SDT) é essencial para determinar a “inteligibilidade do T-R” e a natureza da comunidade virtual que se constituirá, em primeira instância, à sua volta.

*Nota Final

Como dissemos, a eleição dos sinais distintivos ou o recorte da distinção territorial é um momento determinante nesta metodologia. O nexo implicativo e a criação de sentido coletivo são fundamentais. Eis alguns exemplos. Um campo arqueológico, uma linha de água, uma mata ou um bosquete, um mosaico agroecológico, um endemismo local, uma área de paisagem protegida, um ou mais percursos de natureza, uma denominação protegida, indicação geográfica ou marca coletiva, uma paisagem literária, a arte e o canto, uma cooperativa agrícola, uma associação de desenvolvimento local, um centro de investigação, são exemplos de SDT que, pela sua conexão cognitiva, irão servir para forjar a identificação do T-R e criar uma iconografia narrativa que seja representativa e na qual todos se reconheçam. Conceber o imaginário de um T-R é, só por si, uma tarefa de grande fôlego. Tudo pode começar no universo virtual e tudo pode ser deveras surpreendente. Por que não tentar?

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António Covas
Doutorado em assuntos europeus pela Universidade de Bruxelas Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve Vários livros sobre os temas europeus, as políticas do território e do desenvolvimento rural.

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