Luís Emídio representa Portugal nos International Wheelchair & Amputee Sports Federation

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Luís Emídio tem 33 anos e é atleta de Ténis de Mesa no Grupo Desportivo Pic Nic

Luís Emídio nasceu em Castro Marim e é o único atleta natural do Baixo Guadiana a representar Portugal nos próximos IWAS – International Wheelchair & Amputee Sports Federation. Trata-se de uma competição destinada a desportistas em cadeira de rodas e amputados que vai ter lugar no Complexo Desportivo de Vila Real de Santo António, a partir de hoje, 30 de Novembro, e até 6 de Dezembro.

Para muitos, certamente, é uma novidade o facto deste castromarinense integrar os IWAS e muito mais novidade é que jogue ténis de mesa. Por outro lado temos os outros – família, amigos e colegas de trabalho – que acompanham a história deste homem e desportista que aos 21 anos, após um acidente rodoviário, viu uma perna ser-lhe amputada. Não podemos adjetivar teoricamente a mudança que representou tal acidente na sua vida. Porque Luís Emídio, hoje com 33 anos, antecipa-se a qualquer suposição ou juízo de valor; e de coração cheio afirma que “este acidente foi a melhor coisa que [lhe] podia ter acontecido”. E quando uma conversa/entrevista se inicia desta forma percebemos, claramente, que estamos perante uma pessoa especial e que nos permite questionar a vida tal como ela se nos afigura.

“No momento em que estava a ser lançado pelo ar fiz uma rápida retrospetiva da minha vida e pensei que se morresse naquele momento tinha vivido de uma forma muito pouco interessante e acertada…”. Hoje Luís Emídio, prestes a integrar a comitiva nacional dos atletas para estes IWAS, numa modalidade que o entusiasma desde muito novo [tendo sido federado em ténis de mesa em criança] garante que se sente inteiro e completo, além de “abençoado por o acidente que sofreu lhe ter permitido tornar-se numa pessoa melhor”; o que de outra forma, garante-nos, “dificilmente, teria acontecido”.

Luís não se sente diminuído, nem tão pouco diferente dos outros. Casado e pai de dois filhos, é funcionário da câmara municipal de Vila Real de Santo António há bastantes anos garante que o trabalho encara-o “como qualquer outro colega”, sendo que motivação e vontade não lhe faltam. Atualmente ocupa a função de recepcionista do complexo desportivo de VRSA, tendo começado na área da limpeza e manutenção.

A presidente da câmara municipal de VRSA, Conceição Cabrita, é das pessoas por quem Luís Emídio tem mais gratidão. “Por ter acreditado que era capaz”, explica este jovem. Contactada pelo nosso jornal, Conceição Cabrita não hesita em dizer que olha para o “Luís como uma pessoa especial, não pela deficiência física que tem, mas, pelo contrário; por conseguir demonstrar que quando o pensamento e a vontade estão por bem tudo se consegue”. A atual presidente  daquela edilidade faz questão de dizer ao nosso jornal que “o Luís entrou na câmara [já após o acidente] num programa de apoio social, mas ficou como funcionário da câmara após um Concurso onde deu provas claríssimas das suas inúmeras capacidades, bem como do seu potencial enquanto profissional; o que tem vindo a ser demonstrado diariamente”. Na altura, Conceição Cabrita era vereadora com o pelouro da Ação Social e Recursos Humanos.

A passagem pelo atletismo

No seu local de trabalho Luís Emídio tem «oportunidades de ouro» no contacto com inúmeros atletas. Apesar do seu grande amor pelo Ténis de Mesa ter começado ainda em criança, Luís Emídio, em 2010 ingressou pelo atletismo, nas modalidades de Dardo, Disco e Peso. No ano seguinte, 2011, já obtinha o primeiro lugar nestas três modalidade na competição «Jogos de Portugal», que decorreu em Leiria.

Posteriormente, conta-nos, foi convidado a integrar uma equipa de Dardo da Bélgica, mas recusou “pelo amor a Portugal ser maior”. Ficou na pátria lusa, mas, contudo, lamenta, a falta de financiamento e apoios aos atletas com deficiência, bem como “a descriminação enorme que se sente em relação aos apoios dados aos atletas normais”. Luís Emídio conta-nos que aquando dos Jogos Olímpicos do Rio em 2016 detinha marcas que o possibilitavam voar até ao Brasil “mais uma vez, quando é preciso o apoio da Federação Nacional de Atletismo este mostra-se inexistente”. Nesta fase Luís Emídio precisava de material ortopédico novo porque o que tinha apresentava-se desgastado e não reunia as condições de segurança para competir. Sem apoio para prosseguir ficou, desde então, “muito zangado” com aquela Federação e não voltou a praticar atletismo.

A aposta forte no Ténis de Mesa

Luís E. nunca abandonou o ténis de mesa e, recentemente, em Setúbal, numa das etapas do circuito nacional de Ténis de Mesa trouxe um segundo lugar. “Não conseguimos participar em muitas provas do circuito porque é, praticamente, tudo do nosso bolso”, referiu este atleta que agora que está prestes a competir internacionalmente pela primeira vez e “em casa”, sentindo-se preparado para enfrentar os melhores da modalidade em VRSA durante os IWAS.

O seu ritmo de treino habitual é de 8 horas semanais. Cauteloso, Luís tem treinado menos esta semana para não correr o risco de se magoar ou danificar a prótese. “Motivado e com muito sacrifício pessoal porque não é fácil fazer desporto nestas condições”, é um exemplo inspirador que terá, certamente, sobre ele muitos olhares de apoio durante a competição.

 Apoio é fundamental

A sua prestação não será apenas por mérito próprio. Luís Emídio não se esquece todos os que o apoiam, desde logo os treinadores e direção do Clube Pic NIC, de VRSA. Contactámos um dos seus treinadores que nos confirmou “o enorme potencial de Luís Emídio”. José Rosa garante que “este atleta tem tudo para dar ao ténis de mesa e a sua participação muito dignifica o clube ao representar Portugal nestes jogos”.

De referir que Luís Emídio conta no Clube Pic Nic com a camaradagem do seu colega de equipa António Mangana, que também vai participar nos IWAS. Ao Jornal do Baixo Guadiana este atleta, a residir em Tavira, conta que começou a praticar “ténis de mesa adaptado [porque é amputado de um membro superior] no campeonato nacional há dois anos” e quanto à participação nos IWAS garante que “será sem dúvida uma oportunidade única”.

O Clube Desportivo Pic Nic vai estar assim muito bem representado nestes IWAS. Com mais de meio século de vida, este clube tem muitas vitórias e consagrações. O atletismo e o ténis de mesa são o seu forte, sendo que José Militão, membro da direção do clube testemunha “as muitas dificuldades por que passa o Pic Nic devido aos poucos recursos financeiros”, ressalvando, no entanto, “todo o trabalho dos atletas que com o apoio possível do clube, nomeadamente o transporte que é fundamental” permitem colocar o clube em inúmeras competições . Com cerca de 25 atletas, distribuídos entre ténis de mesa e atletismo este clube não deixa, apesar das dificuldades, ninguém indiferente face à qualidade dos seus campeões.

 

Luís Emídio durante uma das etapas do campeonato nacional de Ténis de Mesa, em Setúbal
O jogador trouxe para casa o 2.º lugar desta etapa a contar para o campeonato nacional, e que teve lugar no Estádio do Bonfim em Setúbal

 

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