Se eu fosse Professora

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– Agora abram os livros na página 32 e façam os dois primeiros exercícios. Vá, têm dez minutos e não quero conversas!
Um dos alunos nem sequer se mexe. O professor aproxima-se e pergunta-lhe se não trouxe o manual.
– Sim, está aqui. Mas não vou fazer isso, não quero!
O professor volta à sua secretária, resignado à impotência e agarrado à esperança de que os demais alunos não sigam o dissidente e se recusem também ao trabalho. Sabe que não pode contrariar aquele menino, cujos encarregados de educação apresentaram um relatório psicológico de transtorno de oposição… o rapaz não pode ser contrariado.

– Bom dia a todos! Hoje vamos falar de…
O ruído faz lembrar o de uma feira de aldeia num domingo de sol.
– Preciso de silêncio, assim não vai ser possível… – continua a professora, elevando um pouco a voz, mas temendo de antemão o cansaço físico e emocional que sentirá a meio da tarde do primeiro dia da semana.
A feira continua e ela prossegue, resignada à impotência e agarrada à esperança de que alguns dos alunos que ainda se interessam não se percam pelos outros.

– Desculpa mas vais ter de tirar o boné!
– Porquê?
– Porque é má educação usá-lo aqui e não o quero na minha sala de aula.
– Então vem-me cá tirar, ó palhaço! – responde o adolescente, tão consciente da sua má educação como da total ausência de consequências para qualquer dos seus comportamentos.
O professor, revoltado e sem esperança, começa a debitar a matéria. Ao gaiato de nada lhe serve o boné que não tirou da cabeça pois o único sol daquela sala perdeu totalmente o seu brilho.

Se eu fosse professora a minha carreira seria, seguramente, problemática. Isto é, claro, se conseguisse manter-me nela. Podendo sustentar-me de outra maneira, seria rapidamente afastada, no mínimo por exceder o ratio de criancinhas a mandar para a rua, e no máximo… nem me atrevo a imaginar. A não ter mais como ganhar a vida, procuraria manter-me em funções, obediente ao triste, amorfo, impotente e deslavado papel a que a permissividade e a super proteção dos alunos remeteu a classe docente.
Irão desculpar-me as sensibilidades mais sensíveis e os defensores do “Ai Jesus que os meninos ficam traumatizados para a vida!”, mas caminhamos para o abismo. É que vamos direitinhos para lá porque o conhecimento (o pouco que consegue ser transmitido nas aulas-feira) de nada serve sem educação e valores!

Não sou assim tão antiga mas agradeço todas as reguadas que a professora Alexandrino me deu (não foram assim tantas porque se o meu pai descobrisse a minha vida complicar-se-ia bastante); agradeço o pulso firme que os meus professores ainda podiam ter e o incontestável respeito a que os meus progenitores sempre se deram. Sim, levei reguadas e galhetas, tive castigos, e além de não ter tudo o que queria, tinha metas na escola e funções a cumprir em casa. Não sei por que milagre nunca fui acompanhada por psicólogos, ou por que raio não tenho insónias nem tomo ansioliticos, calmantes e afins… muito estranho! Ou esperem.. se calhar não! Se calhar as crianças, adolescentes e jovens precisam de saber que há responsabilidades, deveres, regras e limites. Se calhar, para não crescerem descompensados, precisam de temer um pouco alguém e as consequências que as prevaricações podem (DEVEM) trazer. Sem isto estamos a fabricar gerações totalmente inconsequentes de quem nada pode ser esperado e a quem tudo tem que ser permitido!

Quando é que a equação se inverteu e tornou tão perniciosa? Isso já não interessa, o que importa é começar depressa a inverter a tendência.
Agora querem que as pessoas se formem nas escolas, mas não deixam espaço a que tal aconteça. Agora os educadores demitem-se de dar educação e querem que sejam os professores a fazê-lo, mas que se prepare a cruz para pendurar o primeiro que ouse tentar!
A viragem do descalabro para o remedeio destes futuros não é simples, mas é muito clara: ou os educadores impõem a educação para que os meninos possam ir para as escolas trabalhar o intelecto ou então que se permita que os professores recuperem a autoridade para ministrar não só a matéria como a educação que tanta falta faz a tantos.

 

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Ana Amorim Dias

Ana Amorim Dias, escritora algarvia nascida em Faro em 1974, forma-se aos vinte e três anos na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Abraça o exercício da advocacia durante a primeira década deste século, época em que vai diversificando o seu exercício profissional estendendo-o à área do turismo e da restauração, tanto no icónico bar Piratas-Altura como com a criação da Quinta do Monte, local de encantos únicos vocacionado para a produção de eventos. Em 2009 acrescenta a estas e outras actividades uma nova paixão. Ao escrever HISTÓRIAS DO (A)MAR, uma compilação de três romances de ficção, percebe que não lhe será possível parar. Nos anos seguintes escreve mais sete obras e milhares de crónicas publicadas em diversos jornais, revistas e publicações digitais; colabora em antologias de poesia, em produções discográficas e conteúdos promocionais; faz reportagens no estrangeiro; cria conteúdos para brochuras institucionais e procura experimentar todos os campos em que a escrita é possível. Tendo como mais recentes títulos dois livros vocacionados para os leitores mais jovens (O QUE NUNCA UM ADULTO TE DISSE e FAZ O QUE ÉS) aproveita para retomar regularmente uma das suas antigas paixões de comunicadora, o que acontece através de incontáveis palestras para as quais é solicitada por escolas de todo o país.

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