Ana Amorim Dias coloca-se na pele de professora. Leia o resultado…

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Escritora fala sobre as fronteiras em sede de sala de aula nos dias de hoje

Em mais uma crónica a escritora castromarinense dá a sua opinião. Desta vez o tema é a Educação. Ora leia.

 

«Se eu fosse Professora»

– Agora abram os livros na página 32 e façam os dois primeiros exercícios. Vá, têm dez minutos e não quero conversas!
Um dos alunos nem sequer se mexe. O professor aproxima-se e pergunta-lhe se não trouxe o manual.
– Sim, está aqui. Mas não vou fazer isso, não quero!
O professor volta à sua secretária, resignado à impotência e agarrado à esperança de que os demais alunos não sigam o dissidente e se recusem também ao trabalho. Sabe que não pode contrariar aquele menino, cujos encarregados de educação apresentaram um relatório psicológico de transtorno de oposição… o rapaz não pode ser contrariado.

– Bom dia a todos! Hoje vamos falar de…
O ruído faz lembrar o de uma feira de aldeia num domingo de sol.
– Preciso de silêncio, assim não vai ser possível… – continua a professora, elevando um pouco a voz, mas temendo de antemão o cansaço físico e emocional que sentirá a meio da tarde do primeiro dia da semana.
A feira continua e ela prossegue, resignada à impotência e agarrada à esperança de que alguns dos alunos que ainda se interessam não se percam pelos outros.

– Desculpa mas vais ter de tirar o boné!
– Porquê?
– Porque é má educação usá-lo aqui e não o quero na minha sala de aula.
– Então vem-me cá tirar, ó palhaço! – responde o adolescente, tão consciente da sua má educação como da total ausência de consequências para qualquer dos seus comportamentos.
O professor, revoltado e sem esperança, começa a debitar a matéria. Ao gaiato de nada lhe serve o boné que não tirou da cabeça pois o único sol daquela sala perdeu totalmente o seu brilho.

Se eu fosse professora a minha carreira seria, seguramente, problemática. Isto é, claro, se conseguisse manter-me nela. Podendo sustentar-me de outra maneira, seria rapidamente afastada, no mínimo por exceder o ratio de criancinhas a mandar para a rua, e no máximo… nem me atrevo a imaginar. A não ter mais como ganhar a vida, procuraria manter-me em funções, obediente ao triste, amorfo, impotente e deslavado papel a que a permissividade e a super proteção dos alunos remeteu a classe docente.
Irão desculpar-me as sensibilidades mais sensíveis e os defensores do “Ai Jesus que os meninos ficam traumatizados para a vida!”, mas caminhamos para o abismo. É que vamos direitinhos para lá porque o conhecimento (o pouco que consegue ser transmitido nas aulas-feira) de nada serve sem educação e valores!

Não sou assim tão antiga mas agradeço todas as reguadas que a professora Alexandrino me deu (não foram assim tantas porque se o meu pai descobrisse a minha vida complicar-se-ia bastante); agradeço o pulso firme que os meus professores ainda podiam ter e o incontestável respeito a que os meus progenitores sempre se deram. Sim, levei reguadas e galhetas, tive castigos, e além de não ter tudo o que queria, tinha metas na escola e funções a cumprir em casa. Não sei por que milagre nunca fui acompanhada por psicólogos, ou por que raio não tenho insónias nem tomo ansioliticos, calmantes e afins… muito estranho! Ou esperem.. se calhar não! Se calhar as crianças, adolescentes e jovens precisam de saber que há responsabilidades, deveres, regras e limites. Se calhar, para não crescerem descompensados, precisam de temer um pouco alguém e as consequências que as prevaricações podem (DEVEM) trazer. Sem isto estamos a fabricar gerações totalmente inconsequentes de quem nada pode ser esperado e a quem tudo tem que ser permitido!

Quando é que a equação se inverteu e tornou tão perniciosa? Isso já não interessa, o que importa é começar depressa a inverter a tendência.
Agora querem que as pessoas se formem nas escolas, mas não deixam espaço a que tal aconteça. Agora os educadores demitem-se de dar educação e querem que sejam os professores a fazê-lo, mas que se prepare a cruz para pendurar o primeiro que ouse tentar!
A viragem do descalabro para o remedeio destes futuros não é simples, mas é muito clara: ou os educadores impõem a educação para que os meninos possam ir para as escolas trabalhar o intelecto ou então que se permita que os professores recuperem a autoridade para ministrar não só a matéria como a educação que tanta falta faz a tantos.

 

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