Temos mesmo que começar a tentar salvar o Mundo…

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A escritora Ana Amorim Dias faz-nos refletir uma vez mais

Devia ter dez anos e tinha acabado de entrar para a escola preparatória quando o episódio se deu. Um colega, sem fazer a mínima ideia do que estava a fazer, levantou o braço em plena aula e esticou a mão para a frente, à boa maneira nazi. O professor, muito calmo, interrompeu a aula e perguntou-lhe se ele conhecia o significado de tal gesto. Depois imprimiu uma dignidade e emoção tão grandes à explicação, que todos nos prendemos às suas palavras. Não sei se foi nesse dia que ouvi falar pela primeira do Hitler, dos judeus perseguidos, dos horrores do nazismo e suas ideologias. Mas sei que me ficou para sempre na memória a sensação de incredulidade que aquela aula me trouxe.
Tinha dez anos e não consegui entender como podia tal monstro ter existido, e pior: ter sido cegamente seguido por tantos.
Seguiu-se o percurso normal: as leituras (3 ou 4 se bem recordo) do Diário de Anne Frank, as “entrevistas” a todos os “mais velhos” que me pudessem explicar melhor o holocausto; o escutar horrorizado de narrativas em primeira mão que consegui de estrangeiros… E depois a queda do muro de Berlim; a alegria e a esperança de que a Alemanha, a Europa e o Mundo tivessem aprendido com tais aberrações; a sensação de tranquilidade (quão inocentes podemos ser na juventude…) e confiança de que o Homem não voltaria a permitir tais monstruosidades.

É pena não termos dez anos para sempre.
Ou então não.
Ou então ainda bem que crescemos e percebemos que os monstros do passado, que acreditávamos extintos, deambulam ainda entre nós, crescendo e tomando uma força que jamais julgamos que voltasse a ser possível.
É. Ainda bem que crescemos e que, em vez de nos esgotarmos em inocências e esperanças, passamos a ter a capacidade de agir.

Espero que muitos dos loucos que têm recomeçado, por esse mundo fora, a reabilitar os monstuosos desvalores nazis, sejam como o meu colega de aula dessa manhã tão distante: seres inconscientes do que proclamam por mera estupidez ou ignorância, reabilitáveis portanto em caso de esclarecimento.
Quanto aos outros, os esclarecidos convictos… bem, que tenhamos todos calma e força para, um por um, lhes irmos mudando as convicções.
Boa sorte, amigos, e coragem, porque cada vez mais me convenço que temos mesmo de começar a tentar salvar o mundo.

 

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Ana Amorim Dias
Ana Amorim Dias, escritora algarvia nascida em Faro em 1974, forma-se aos vinte e três anos na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Abraça o exercício da advocacia durante a primeira década deste século, época em que vai diversificando o seu exercício profissional estendendo-o à área do turismo e da restauração, tanto no icónico bar Piratas-Altura como com a criação da Quinta do Monte, local de encantos únicos vocacionado para a produção de eventos. Em 2009 acrescenta a estas e outras actividades uma nova paixão. Ao escrever HISTÓRIAS DO (A)MAR, uma compilação de três romances de ficção, percebe que não lhe será possível parar. Nos anos seguintes escreve mais sete obras e milhares de crónicas publicadas em diversos jornais, revistas e publicações digitais; colabora em antologias de poesia, em produções discográficas e conteúdos promocionais; faz reportagens no estrangeiro; cria conteúdos para brochuras institucionais e procura experimentar todos os campos em que a escrita é possível. Tendo como mais recentes títulos dois livros vocacionados para os leitores mais jovens (O QUE NUNCA UM ADULTO TE DISSE e FAZ O QUE ÉS) aproveita para retomar regularmente uma das suas antigas paixões de comunicadora, o que acontece através de incontáveis palestras para as quais é solicitada por escolas de todo o país.

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