No Baixo Guadiana o comércio ambulante ainda percorre rotas intemporais

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Imagem contemporânea de um Mercado ambulante: «Mercadinho de Odeleite»

A maioria das gentes do Baixo Guadiana, sobretudo no interior, vivia, há apenas umas décadas longe dos principais aglomerados urbanos, onde o terreno acidentado, a inexistência de estradas e transportes apropriados determinava o isolamento e ruralidade da maioria do território. O Rio Guadiana, principal via de comunicação do sul durante vários séculos, teve um papel essencial como elemento estruturante do território, porém, não foi o único caminho.

Apesar de auto-suficientes na maioria dos aspectos, alguns produtos escasseavam nas localidades mais interiores. O mundo chegava aos montes e aldeias de carrinha, em carro de mula, na albarda de alguma besta, de barco, numa bicicleta “pasteleira”, ou até a pé, dirigidos por almocreves, vendedores ambulantes e tendeiros, que, de feira em feira, de monte em monte, mensalmente ou anualmente, dinamizavam o comércio e economia local. A globalização chegava assim às aldeias, onde também as novas do exterior, ou dos “algarves”, se misturavam com o comércio de bens. Esta relação entre comerciantes e clientela assumia assim uma função de cariz social, fundamental para atenuar o isolamento, aproximando as gentes do mundo.

Por veredas e veredinhas, “caminhos de lobos”, de burro ou de cabras, rotas relevantes de comércio ou de passagem por vezes impossíveis de percorrer, circulavam os vendedores ambulantes ou ainda os prestadores de serviços vários, como o sapateiro, o ferrador, o amola-tesouras, o médico ou até o cardador, com os bens e serviços necessários às famílias do Baixo Guadiana. As terras tinham, de um modo geral, a sua venda, para abastecimento corrente, ou mesmo um mercado e/ou feira onde se trocavam bens e se faziam os negócios. Da costa, seguia o peixe miúdo – como a sardinha, o carapau ou a cavala – conservado em sal, trocado pela carne da serra, toucinho, ovos, frutas grão, feijão e outros produtos hortículas, ou mesmo pequenos animais – como galinhas, patos e coelhos. Nas relações comerciais, a troca de géneros, ao invés do uso de moeda, era comum.

As povoações ribeirinhas beneficiaram do tráfego que desde sempre se estabeleceu no rio onde circulavam pessoas e muitas das mercadorias que, a partir de lugares como Foz de Odeleite, Laranjeiras, Guerreiros do Rio ou Alcoutim, abasteciam por sua vez uma rede interna de comércio, que seguia vias secundárias e rotas de passagem. Nessa rede, as tabernas serviam como interpostos comerciais, que recebiam e escoavam os bens, através de mercadores nos seus burros, machos ou égua. Em Odeleite, a Ribeira assumia-se como a via primordial de comunicação e tráfego de pessoas e bens, denunciada até pela orientação das casas, cujas fachadas se viram para a própria ribeira. Por via fluvial, vinha de Santa Rita a cal para caiar as habitações; a madeira chegava de barco oriunda dos pinhais de Vila Real de Santo António, ou dos montes do rio; desde Castro Marim, chegava o sal; dos fornos de telhas na zona do Sapal, os ladrilhos para a construção; o barco que distribuía o correio; entre outros. No sentido inverso, da serra para o “algarve”, seguia o trigo colhido no campo pronto para moer, azeitonas carregadas em canastras, galinhas, queijos, carvão e outros produtos também originários da serrania.

Hoje, embora exista uma maior oferta de pontos comerciais, melhores vias de comunicação e abundância de meios de transporte, alguns vendedores, como o peixeiro, o padeiro, algum que outro mariscador ou o amola tesouras, ainda percorrem as povoações seguindo rotas intemporais, numa lógica de aproximação às gentes, que, apesar de tudo, sobrevive tenazmente ao tempo.

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Pedro Pires
Natural e residente no Concelho de Castro Marim nasceu a 13 de Outubro de 1984. É Licenciado em Património Cultural, pela Universidade do Algarve (2004-2009) e possui uma Pós-Graduação em Património Cultural Imaterial, na Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologias (2012). Exerce funções de Técnico Superior de Património Cultural da empresa municipal NovBaesuris EM, SA de Castro Marim, desde 2011. É membro do Centro de Estudos em Património, Paisagem e Construção da Universidade do Algarve (CEPAC/UAlg). Foi Bolseiro de Investigação do Centro de Estudos de Património e História do Algarve, da Universidade do Algarve (CEPHA/UAlg), entre 2009 e 2010, no âmbito do protocolo entre este e o Município de Castro Marim, para a elaboração de conteúdos na exposição “Algarve, do Reino à Região: Castro Marim, Baluarte Defensivo do Algarve”. Co-autor das publicações “Castro Marim, Baluarte Defensivo do Algarve” e “Acordeão ALM’Algarvia”, resultantes das exposições homónimas do Município de Castro Marim. Colaborador do Jornal do Baixo Guadiana, na «Rubrica de Património», com artigos acerca do património cultural do Baixo Guadiana (2012 a 2016). Autor de vários artigos já publicados e outros no prelo, bem como de comunicações e palestras acerca da História e Património Imaterial de Castro Marim.

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