Um roteiro neorural para o Nordeste Algarvio e o Baixo Guadiana

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São cada vez mais os amantes da natureza do Baixo Guadiana

 

Agora que se fala tanto em áreas de baixa densidade e valorização do interior (o Conselho de Ministros acaba de aprovar o programa de coesão territorial para essas áreas), agora que o “boom” do turismo pode ser uma oportunidade para criar “uma geração de neorurais”, vale a pena uma pequena incursão pelo universo do nosso mundo rural.

O espaço rural é, cada vez menos, um espaço produtor e, cada vez mais, um espaço produzido. O  mundo rural é, hoje, um palco imenso onde se desenrolam todas as representações do mundo actual, das mais paroquiais e populares às mais cosmopolitas e sofisticadas. Em boa verdade, trabalhamos mais com imagens e representações do mundo rural, quase todas de proveniência e inspiração urbanas, do que com o “mundo rural propriamente dito”. Estamos, portanto, numa situação transitória em que os valores específicos da ruralidade, mais tradicionais ou mais modernos, são objecto de apropriação por actores muito diversos que os usam para estratégias muito variadas. O que importa realçar, nesta altura, é a evidência de que o espaço rural se transmutou de espaço-produtor em espaço-produzido. Esta transmutação, feita essencialmente por agentes citadinos ou urbanos, significa umas vezes verdadeira modernização agrária, outras vezes turistificação vinícola, oleícola ou cinegética, outras vezes, ainda, simples elemento decorativo para “happenings” cosmopolitas, aproveitando a amenidade de uma barragem, de um rio ou outra linha de água. Seja como for, os “futuros” do mundo rural já se anunciam. Eis uma incursão breve a esse tempo do futuro.

 

  1. Os mercados de futuro do mundo rural

 

Já estamos em condições de enunciar aqueles que serão os principais mercados de futuro do mundo rural. Eles estarão, certamente, na confluência de quatro grandes vectores emergentes na sociedade da informação e do conhecimento: a agroecologia, a biodiversidade, os ecossistemas e as paisagens globais. Eis os seus principais mercados:

– os mercados dos produtos agroecológicos: dos produtos convencionais aos produtos limpos,

– os mercados do carbono: o papel dos fundos de investimento no sequestro do carbono,

– os mercados da água: da água da chuva à água da rede, com passagem pelas águas recicladas,

– os mercados da biodiversidade e dos serviços ecossistémicos: os bens comuns e de mérito ecológico que fazem a notoriedade e a reputação de um lugar,

– os mercados das amenidades: do ordenamento à arquitectura da paisagem, da engenharia biofísica às artes da paisagem da paisagem global,

– os mercados dos 4R: reduzir, reciclar, reparar e reutilizar, os princípios fundamentais de um comportamento responsável,

– os mercados de nicho e denominação de origem: os produtos com identidade, que importa valorizar a todo o custo porque põem no mapa os territórios mais remotos,

– os mercados dos produtos não-convencionais: o futuro saudável está claramente ao nosso alcance, ou a ligação entre a agricultura biológica e uma política de “institutional food”,

– os mercados da mitigação, adaptação e compensação: as alterações climáticas já aí estão, esta é uma linha fundamental de intervenção para a política pública e privada,

– os mercados dos alimentos funcionais: os milagres da biotecnologia alimentar ao serviço da saúde pública,

– os mercados da microgeração energética: poupança, eficiência e diversificação das fontes, a democracia energética ao nosso alcance,

– os mercados da prevenção, contingência e segurança: um mercado em crescimento rápido, da meteorologia e dos equipamentos de aviso e alerta até aos processos laboratoriais de rastreabilidade dos produtos,

– os mercados da regeneração e da renaturalização dos recursos e dos ecossistemas: da engenharia biofísica e da arquitectura paisagística até à cirurgia reconstrutiva das áreas ardidas.

 “Os amigos do campo”, os neorurais do próximo futuro

Para estes mercados do futuro é preciso sensibilizar e mobilizar toda a gente. Os amigos do campo serão cada vez em maior número, falta saber se é possível mobilizá-los para empreender e agir em espaço rural.  Eis alguns dos amigos do campo, os neorurais do próximo futuro:

– os “nostálgicos românticos”, para quem o campo é um campo de recordações e evocações,

– os “peri-urbanistas pendulares”,  para quem o campo é uma suave recarga para as descompensações do dia a dia,

– os “ecologistas militantes” para quem o campo é o campo das grandes causas,

– os “turistas da natureza” para quem o campo é uma “experienciação” inesquecível,

– os “caçadores reservistas” para quem o campo é uma oportunidade de “acertar o pássaro”,

– os “desportistas radicais” para quem o campo é uma experiência plena de emoções fortes,

– os “paisagistas do ordenamento e da conservação” para quem o campo é um quadro pictórico e um mosaico ecossistémico,

– os “agricultores integralistas” para quem o campo é uma espécie de regresso à terra-mãe biológica,

– os “patrimonialistas da cultura” para quem o campo é um repositório de histórias e mistérios,

– os “sequestradores de carbono” para quem o campo é um depósito precioso e uma oportunidade de investimento com interesse,

– os “consumidores funcionalistas” para quem o campo é um repositório de dietas e mezinhas,

– os “arquitectos da construção sustentável”  para quem o campo é uma fonte inesgotável de materiais e bioregulação,

– os “prosumidores de energia” para quem o campo é uma fonte inesgotável de recursos renováveis,

– as “famílias de recolhimento” para quem o campo é uma fonte de espiritualidade e um repositório de valores, princípios e segurança, um projecto de vida.

Breve, o campo não é apenas o lugar onde uma ocorrência produtiva acontece, é, também, uma predisposição e uma aspiração fundadas, elas próprias, na inspiração da natureza. Por isso, os neorurais não vivem, geralmente, no campo, têm uma cultura pro-campo, são amigos do campo mesmo vivendo na cidade grande. Estamos, doravante, imersos no paradigma da mobilidade e das economias de rede e visitação. De resto, a crise actual confirma a necessidade e a vontade de regressar à economia real, ao chão firme. É tempo, também, de rever algumas das categorias intelectuais e ideias dominantes que nos regeram nas últimas décadas, por exemplo: o estigma social ligado ao campo, o sacrifício da extensão rural no altar do mercantilismo químico-mecânico, o produtivismo monofuncional e superespecializado, a dicotomia urbano-rural, fonte de inúmeros mal-entendidos, o progresso identificado com o êxodo e a urbanização, a desqualificação do capital social no rural profundo, o academicismo sobranceiro das instituições de ensino superior. Enfim, um verdadeiro programa político para o mundo rural.

 

  • As dez bases programáticas para um roteiro neorural

 Estamos em 2017, passaram vinte anos, estão a terminar as compensações ao rendimento concedidas ao abrigo do regulamento comunitário 2080 da Política Agrícola Comum sobre medidas agro-florestais. Temos hoje, no Nordeste Algarvio e no Baixo Guadiana, uma economia agro-florestal digna desse nome? Temos hoje uma multifuncionalidade e pluriactividade dignas desse nome? Interrompemos o circulo vicioso de desertificação e despovoamento? Ao menos, “turistificámos” o interior remoto e o Baixo Guadiana? Em matéria de cooperação transfronteiriça, fizemos progressos dignos desse nome? Já temos a navegabilidade do Guadiana assegurada até Alcoutim? Infelizmente, fizemos apenas “política de mitigação” e não podemos afirmar que invertemos a tendência longa do nordeste algarvio.

Nos próximos vinte anos as medidas agro-ambientais e agro-florestais no nordeste algarvio continuam a fazer sentido, por maioria de razão devido às alterações climáticas, mas precisam de ser reenquadradas num outro modelo de desenvolvimento do nordeste algarvio, um modelo que abranja todo o Baixo Guadiana e que recupere a multifuncionalidade agrossilvopastoril por via de uma nova geração de “pagamentos ambientais ou ecossistémicos”. Sem esta associação entre “multifuncionalidade e pagamento de serviços” será o definhamento inelutável do nordeste algarvio.

Não obstante as dificuldades e o seu evidente constrangimento, deixo aqui alguns tópicos para uma política de desenvolvimento rural sob a forma de um decálogo de bases programáticas para o desenvolvimento comunitário dos territórios de baixa densidade, se quisermos uma espécie de roteiro neorural, útil, por exemplo, para planear o desenvolvimento dos agrupamentos de aldeias ou municípios do interior do país:

  • Programa “Em busca das sementes perdidas”: recuperação da biodiversidade local e restauração biofísica dos hotspots respectivos (base biodiversa);
  • Programa “Poupança, conservação e eficiência energética”: divulgação de boas práticas energéticas (base energética);
  • Programa “Bioconstrução e bioregulação climática”: o uso de materiais e tecnologias locais de construção e boas práticas em matéria de bioregulação e adaptação às alterações climáticas (base climática);
  • Programa “Produção e educação agro-alimentar”: auto-abastecimento e autogestão da produção alimentar (base alimentar);
  • Programa “Turismo de natureza”: ordenamento dos percursos e dos fluxos de visitação, dos endemismos locais aos sítios histórico-arqueológicos (a base ecoturística);
  • Programa “Floresta de fins múltiplos”: a multifuncionalidade da floresta e o seu uso múltiplo (base florestal);
  • Programa “Mobilidade suave”: o desenho de vários projectos de acessibilidade, em especial para grupos de mobilidade reduzida (base de mobilidade);
  • Programa “Microcrédito”: o crédito popular para os pequenos empreendimentos em conjugação com outros formatos financeiros (base financeira);
  • Programa “Banco de tempo”: a entreajuda entre vizinhos e amigos do projecto para um programa de voluntariado (base voluntariado);
  • Programa “Memória futura”: a arte e a cultura, em todas as suas dimensões, ao serviço do desenvolvimento integral do cidadão e da comunidade (base sociocultural).

Para concretizar estas bases programáticas, deixo, também, uma referência aos “embaixadores do Nordeste Algarvio e do Baixo Guadiana” que podem ajudar a reescrever o seu futuro:

– dois ou três ícones histórico-culturais,

– dois ou três percursos de natureza de grande qualidade,

– dois ou três produtos de marca de elevada qualidade,

– duas ou três boas práticas de economia circular,

– dois ou três endemismos florísticos ou faunísticos para observação,

– dois ou três eventos de grande prestígio,

– duas ou três residências permanentes de natureza artística e/ou científica,

Nota Final

Para lá da moda neo-rural e dos seus três pivots – o green, o eco e o bio –  para lá da nossa nostalgia, romantismo e até algum paternalismo académico, o realismo histórico diz-nos que sem permanência não há competência, isto é, sem a presença de um actor-rede, um pivot acreditado que represente toda a sub-região interior do Nordeste e do Baixo Guadiana, não haverá desenvolvimento sustentável e emprego duradouro para esta zona do Algarve. Sem a presença de um actor-rede e de uma inteligência colectiva territorial o Nordeste Algarvio e o Baixo Guadiana ficarão nas mãos de mais uma vaga de turistificação por onde passarão, mais uma vez, todos os equívocos do nosso mundo rural.

 

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António Covas
Doutorado em assuntos europeus pela Universidade de Bruxelas Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve Vários livros sobre os temas europeus, as políticas do território e do desenvolvimento rural.

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