A cadeira e o cadeireiro: a arte e o seu ofício no Baixo Guadiana

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Crédito Imagem: Inês Ribeiros

13“Quem foi à feira, perdeu a cadeira”

Provérbio popular

                Das férteis ribeiras, o cadeireiro recolhe praticamente tudo o que precisa para fabricar as cadeiras tradicionais, hoje autênticas relíquias, através de uma arte que teima em persistir no território do Baixo Guadiana. A natureza, generosa, oferece a matéria-prima, e o homem, através de um saber intemporal, transforma os materiais de acordo com as suas necessidades. Com a faca que leva no bolso, corta “mãos cheias” de tabua verde ou junça, que depois vão servir para tecer o fundo. Para a estrutura, recolhe nos loendreiros, a corte de navalha, a madeira de loendro. No caso das de maior porte, a madeira era de zambujeiro, mais resistente. Depois de colhidos, os molhos de tabua ou junça são postos a secar em casa, para não apanharem chuva e não enegrecerem. A tabua é tradicionalmente a erva mais utilizada, pela sua maleabilidade, enquanto a junça, mais resistente, é mais difícil de trabalhar.

O cadeireiro fazia cadeiras de tamanhos diferentes – normais ou em miniatura – ou arranjava-as, consoante a sua habilidade ou a necessidade dos fregueses. As cadeiras pequenas eram as mais vulgares, utilizadas pelos moradores para se sentarem ao fogo, e/ou realizar as mais variadas tarefas. Os cadeirões, de maiores dimensões e munidos de braços, eram mais habituais nas casas ricas.

Colhidas as matérias-primas, o artesão começa por talhar as travessas com um canivete, tarefa onde também pode ser utilizado o serrote. As travessas, inicialmente de formato e encaixe cilíndrico, passam a ser de secção rectangular, tal como o seu encaixe. Para as costas, são espalmadas ao centro, para melhor cómodo. Depois de talhadas, são polidas com a grosa fina, ou até com o cepilho, para um melhor acabamento. Em algumas cadeiras, as travessas mais próximas do chão são em madeira de esteva, mais fácil de colocar e muito mais resistente. Para as cadeiras finas, mais trabalhadas, as travessas eram feitas em “torno de tornear”, sendo os pés mais robustos, facetados, e de formato paralelepipédico.

Na montagem o artesão coloca as travessas da estrutura a diferentes alturas, para garantir maior resistência. Os furos, primitivamente feitos com o trado, são hoje feitos com a broca ou berbequim. As travessas são fixas por pequenos pregos, que substituíram as primitivas “puas” em esteva. Para o fundo, onde assenta a “almofada” da cadeira, as travessas são de arame.

Depois de montada a estrutura, o cadeireiro começa a trabalhar a tabúa ou a junça para fazer o fundo da cadeira. A tabúa, seca ao sol, é molhada para se trabalhar melhor. As “torcidas”, entrançadas nos dedos, cruzam entre si e nas travessas em arame, enquanto se “deita” o fundo. É uma tarefa essencialmente masculina, muitas vezes reservada para os dias em que não se pode sair para o campo, ou realizada durante o serão.

A arte adaptou-se aos tempos e evoluiu, com a adopção de novos materiais. Hoje, também se usam fios sintéticos ou outras madeiras, materiais mais baratos e acessíveis, porém, o processo de fabrico sobrevive, assente num saber intemporal.

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Pedro Pires
Natural e residente no Concelho de Castro Marim nasceu a 13 de Outubro de 1984. É Licenciado em Património Cultural, pela Universidade do Algarve (2004-2009) e possui uma Pós-Graduação em Património Cultural Imaterial, na Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologias (2012). Exerce funções de Técnico Superior de Património Cultural da empresa municipal NovBaesuris EM, SA de Castro Marim, desde 2011. É membro do Centro de Estudos em Património, Paisagem e Construção da Universidade do Algarve (CEPAC/UAlg). Foi Bolseiro de Investigação do Centro de Estudos de Património e História do Algarve, da Universidade do Algarve (CEPHA/UAlg), entre 2009 e 2010, no âmbito do protocolo entre este e o Município de Castro Marim, para a elaboração de conteúdos na exposição “Algarve, do Reino à Região: Castro Marim, Baluarte Defensivo do Algarve”. Co-autor das publicações “Castro Marim, Baluarte Defensivo do Algarve” e “Acordeão ALM’Algarvia”, resultantes das exposições homónimas do Município de Castro Marim. Colaborador do Jornal do Baixo Guadiana, na «Rubrica de Património», com artigos acerca do património cultural do Baixo Guadiana (2012 a 2016). Autor de vários artigos já publicados e outros no prelo, bem como de comunicações e palestras acerca da História e Património Imaterial de Castro Marim.

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