“As pessoas que consomem cultura são poucas e quem manda neste país não tem nenhuma ambição cultural”

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Em Março celebrou 90 anos de idade, sendo que 74 deles foram até aos dias de hoje, e de forma ininterrupta, dedicados à representação. Senhor do teatro, cinema, televisão e rádio elege a Palavra como a maior força da sua profissão. Aos mais novos que escolhem profissionalmente o amor à arte de Representar aconselha seguirem o seu sonho, mas sem perderem a resiliência e sentido de sacrifício porque, recorda, “ser ator em Portugal não é nada fácil”. 
Ruy de Carvalho, grande referência da representação em Portugal, foi recentemente escolhido pelos alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais para o elenco da peça que celebra os 25 anos desta reconhecida escola. Em entrevista ao Jornal do Baixo Guadiana, esta figura notável do país, por diversas vezes homenageado e condecorado a nível nacional, criticou veemente a falta de aposta na Cultura, por parte dos sucessivos Governos.
A nossa conversa, embora rápida [depois de mais um dia de ensaios] teve lugar em pleno Teatro Experimental de Cascais (TEC). Aqui o ator, ainda antes da entrevista propriamente dita, revelou-se um apaixonado pelo Guadiana, o Grande Rio do Sul que banha o nosso território, e que visita com regularidade, nomeadamente nas férias que se aproximam.

O Ruy de Carvalho é acarinhado e reconhecido não só por ser um nome maior da representação em Portugal, mas também pela sua maneira de estar; afável e próxima dos outros. É bom, certamente, sentir essa emoção que vem do público.

É sempre muito bom! E, é verdade que o sinto. A maneira como se aproximam de mim, como falam comigo, como desejam que não deixe de fazer parte da sua vida. É uma honra que me toca profundamente, pois é uma prova que cumpri o que me propus, que passei por cá [pela vida] e que fui útil aos meus concidadãos.

A profissão de ator escolheu-o a si ou foi o Ruy de Carvalho que a escolheu?!

Fui eu que a escolhi, sem dúvida. É uma profissão que considero um serviço aos meus semelhantes. É uma missão de vida que levo a cabo com uma qualidade que me foi atribuída: o jeito para representar.

Quando sentiu que queria ser ator e que tinha jeito?!

Foi quando era muito novo… Tinha apenas 8 anos! Mas na altura o que aconteceu foi uma coisa efémera, só mais tarde se revelaria um caminho ininterrupto. Contribuiu também para isso o facto de que em minha casa havia um enorme consumo de cultura, uma grande abertura para as artes. O meu pai, que era oficial do exército, gostava muito de música. Já a minha mãe tocava piano…

Recorda-se da primeira experiência (há 82 anos!…)

Na altura toda a minha família estava na Covilhã, pois era ali que o pai estava a cumprir serviço militar. Participei numa peça de teatro local e quando entrei no palco pela primeira vez senti medo e respeito, mas entrei. Venci o medo, e vencendo essa primeira parte do desafio venci no resto na vida… Toda a gente tem medo de qualquer coisa, faz de conta é que não tem!…

Houve um hiato. Quando regressou ao palco para nunca mais o deixar?

Apenas regressei aos palco com cerca de 16 anos, pois dei continuidade aos estudos – o curso comercial e ainda uma parte do Instituto Comercial. O amor à representação fez-me ingressar no Conservatório. No teatro o meu primeiro grande mestre foi Francisco Lopes Ribeiro – o «Ribeirinho».

Representar fazia-lhe falta…

Para mim, representar é um alimento que eu preciso para saciar a fome… Há outras coisas que eu gosto de fazer na vida, nomeadamente tudo o que está relacionado com a Arte. Mas também gosto da ciência. Até gostava de ser médico!

O ator recorda aos que ambicionam a arte da Representação que estudem e trabalhem muito
E, como em todas as profissões na vida, para se ser bom ator não basta achar que se tem jeito, há que trabalhar, nomeadamente estudar…

A formação é, claramente,  muito importante porque temos que aprender muitas coisas no teatro. Muitas técnicas, nomeadamente a andar, a saber quais são os vários lados do palco, aprender a respirar… E às vezes fazemos coisas que não nos apercebemos: nós quando falamos temos a nossa tónica, mas no palco temos de adotar uma tónica que não é nossa, mas sim a da personagem. Tal como na vida temos de ter equilíbrio quando interpretamos. Às vezes temos de nos desequilibrar para interpretar uma personagem, mas temos de saber fazê-lo de uma forma equilibrada… Esta profissão exige de nós uma grande prática, não só teoria, mas a prática daquilo que aprendemos com a formação que adquirimos.

Como olha para o panorama dos atores que estão a começar agora?

Encontro um grande desejo de se ser bom ator, mas nem todos o são. Mas existem à disposição muitas funções para além da representação para quem quer muito trabalhar no teatro…

O Ruy de Carvalho também foi encenador… 

Fui; uma vez, mas não quis continuar… É preciso ter paciência para se ser encenador, e um grande conhecimento. E eu julgo que não tenho esse conhecimento todo. Ser encenador não é nada fácil. Tem que se convencer muita gente: o ator, músico, carpinteiro, iluminador, eletricista… O encenador tem que ter assumida uma filosofia do trabalho que pretende fazer. Além de que tem que fazer acreditar; e não impor aquilo que quer.

Quando se cruza com encenadores que não o convencem como reage?

Não gosto e assumo isso; de diletantes não gosto. Gosto de pessoas que percebam das coisas…

São inúmeros os mestres e colegas que merecem a homenagem e respeito de Ruy de Carvalho
E olhando para quem o ensinou ao longo destes 80 anos de teatro, quais foram os seus mestres?

Os meus colegas, em grande parte. Comecei por ter um Assis Pacheco, um Ribeirinho, um Villaret, um Vasco Santana, um António Silva. E, também, outros atores secundários que também são muito importantes, e uma grande escola, pois desempenham um papel importantíssimo. Tive também a Sr.ª D.ª Amélia Rey Colaço, a Sr.ª Pamira Gomes. Tive a Mariana Rei Monteiro, a Carmen Dolores, a Eunice Munoz; que são como se fossem minhas irmãs. Considero-as assim.

Atualmente, um dos projetos que tem em mãos é a peça «Irmão Karamazov» de Fyodor Dostoyvesky. Foi escolhido pelos alunos finalistas do Curso Profissional de Teatro de Cascais para integrar o elenco. Apesar de estar reformado está sempre muito ativo!

Os alunos escolheram para uma peça que assinala os 25 anos desta escola de atores. Apesar de estar reformado não consigo estar parado, não consigo de maneira nenhuma. Gosto de me manter ativo. E está a ser uma muito boa experiência.

E o que diz a quem quer seguir a representação em  Portugal?

Sabemos que não é uma área fácil, mas aos que gostam digo para seguirem os seus sonhos. Que estudem e trabalhem muito para conseguir alguma coisa, porque viver da representação, nomeadamente do teatro, não é nada simples…

E porque não é fácil? Não há público, não há investimento?

As pessoas que consomem cultura são muito poucas e quem manda neste país não tem nenhuma ambição cultural. Chegam ao poder e investem naquilo que não interessa nada. Investem em tudo menos na cultura.  Um povo com cultura avança mais facilmente, compreende melhor as coisas e não é carneiro, no sentido figurativo daquele que segue o outro sem ideias próprias… Precisamos de uma base cultural forte. Mas o que se vê é que faltam políticas para a cultura, e para a educação cultural. Note que em Portugal o teatro vai-se mantendo, mas dificilmente. Em Londres as peças estão em cena durante anos. E tal só acontece porque o público tem formação para o teatro; ou seja, as pessoas criticam, vão ver, apreciam…

Mas atenção que eu não mando no país! Estou farto de, ao longo do tempo, dizer coisas que ninguém liga nenhuma, e isso é uma coisa que me custa um bocadinho. Não é por mim; é por aqueles que não ouvem, pois ficam mais pobres por não levarem em conta a opinião dos outros.

A cultura deveria estar mais democratizada!?…

Sim, deveria. Embora o público também seja um pouco desinteressado, diga-se. Repare que quatro estádios do Benfica dariam para fazer viver durante 10 anos uma de companhia de teatro…

O ator considera que existe espaço para todas as plataformas de divulgação cultural
O Ruy de Carvalho fez teatro, televisão, cinema e rádio. Considera que faz sentido falar-se em «concorrência» e em divisão do público?

Não. Cada género é diferente. E todas as formas servem para divulgar a cultura portuguesa. Eu ainda sou do tempo em que se fazia teatro para televisão, e considero que também deveria de haver essa vertente nos dias de hoje…

Desenvolveu a maior parte do seu trabalho no teatro. Que maior satisfação retira desse palco?

O que mais me move é o poder da palavra que o teatro possui.

Dentre tantas peças teatrais em que participou qual aquela que elege?!

«O Render dos Heróis», de José Cardoso Pires.

E porquê?

Porque fala da nossa pátria, do nosso povo. Eu fazia de cego, aquele que representava o povo português…

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