Como uma cotovelada no estômago

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Teria uns dezasseis anos. A discoteca estava demasiado cheia para o seu gosto; os corpos suados quase se colavam uns aos outros, como se fosse natural o contacto entre desconhecidos corpos. Começou a sentir que alguém roçava o braço no seu, pressionando, impondo-se com crescente insistência. Afastou-o como pode mas não resultou. Ele prosseguiu, parecendo sentir-se no mais assumido direito de o fazer. Ela não pensou nem mediu consequências; elevou o braço e baixou-o com toda a força que tinha, fazendo-o dobrar-se de dor ao impacto do seu cotovelo no estômago dele. Depois saiu para a rua e não voltou a entrar.

E tu? O que farias se te apalpassem? O que farias se te agarrassem sem permissão e, de alguma forma, invadissem a tua integridade física com algum tipo de contacto que não desejasses, pedisses ou permitisses?
O que farias?
Assumindo, claro está, que podias ou conseguias fazer algo para parar tal tenebroso atentado ao templo em que a tua alma habita. O que farias?

O nosso corpo é um santuário quase tão sagrado quanto a nossa essência imaterial. Acredito que devemos ser conscientes e procurar cuidá-lo da melhor forma porque, caso abusemos da sorte, podemos ficar sem casa corpórea antes do que seria expectável. Mais: creio profundamente que, em caso de ataque e a ser-nos possível tal defesa, devemos lutar com todos os meios para que nunca ninguém nos toque sem que o desejemos ou aceitemos de bom grado.
O corpo é nosso, só nosso, e apenas nós devemos decidir quem lhe toca! E quando! E como!

O violentar de um corpo, violenta necessariamente a mente. Da mesma maneira que, um pouco mais indirectamente, o inverso também sucede. E ninguém tem o direito, em nenhuma circunstância, de tocar noutro corpo só porque o deseja. Nem sequer venham dizer que algumas mulheres “se põem” a jeito para que “coisas” lhes aconteçam.
Há o querer e o não querer. Mais nada. Só isso. É brutalmente simples!

Só que esta é apenas uma parte da questão: o não aceitar, jamais, aquilo que é, por definição, inaceitável.
O reverso da moeda mora em quem se atreve a tocar sem poder; reside naqueles seres que consideram giro, legítimo, viril e absolutamente normal agarrar nos nacos que querem comer começando a lambuzar-se sem pedir licença ou esperar permissão.
Como se mudam mentes? Como se corrigem atitudes que, mais do que nojentas e vis, são criminosas? Onde está plantada a semente que banaliza tal horror como se ele fosse normal? Ao educar seres humanos, temos o imperativo dever de lhes mostrar o bem e o mal, incutir valores, desenhar a linha do eterno intransponível… mas… onde andam os educadores? Terão, eles próprios, valores?

Infelizmente nem todos temos em nós o instinto da aguerrida auto proteção. Nem todos temos a capacidade de gritar bem alto por ajuda ou de resolver por nós mesmos o que deve ser resolvido. E nem todos tentamos, com constância, mudar mentalidades… Mas ainda assim é bom que, de cada vez que os abusos se repetem, eles nos doam cá dentro, como uma cotovelada no estômago.

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Ana Amorim Dias
Ana Amorim Dias, escritora algarvia nascida em Faro em 1974, forma-se aos vinte e três anos na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Abraça o exercício da advocacia durante a primeira década deste século, época em que vai diversificando o seu exercício profissional estendendo-o à área do turismo e da restauração, tanto no icónico bar Piratas-Altura como com a criação da Quinta do Monte, local de encantos únicos vocacionado para a produção de eventos. Em 2009 acrescenta a estas e outras actividades uma nova paixão. Ao escrever HISTÓRIAS DO (A)MAR, uma compilação de três romances de ficção, percebe que não lhe será possível parar. Nos anos seguintes escreve mais sete obras e milhares de crónicas publicadas em diversos jornais, revistas e publicações digitais; colabora em antologias de poesia, em produções discográficas e conteúdos promocionais; faz reportagens no estrangeiro; cria conteúdos para brochuras institucionais e procura experimentar todos os campos em que a escrita é possível. Tendo como mais recentes títulos dois livros vocacionados para os leitores mais jovens (O QUE NUNCA UM ADULTO TE DISSE e FAZ O QUE ÉS) aproveita para retomar regularmente uma das suas antigas paixões de comunicadora, o que acontece através de incontáveis palestras para as quais é solicitada por escolas de todo o país.

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