Vêm aí os pronetários das plataformas???

0
57

Não, não vou anunciar ao mundo, de novo, a máxima de Karl Marx, adaptada aos tempos actuais, “Pronetários de todo o mundo, uni-vos”. Podia, mas não vou fazê-lo. Pelo menos, por agora. Digo-vos, porém, o que me inquieta. Através da NET e das suas inúmeras redes e plataformas o potencial de extracção de mais-valias do trabalho humano é cada vez maior. Voltámos à indústria extrativa do capitalismo, agora por alguns também denominado de capitalismo cognitivo (Boutang, 2007) e por muitos outros com a designação ambígua de economia colaborativa. Passámos, pois, a ser colaboradores. Quer gostemos ou não, na era digital que já aí está, uma das alternativas em presença é a “via pronetária”, os precários da rede, os novos proletários da NET. Vejamos alguns aspectos em particular.

  1. O mito libertário da fase original, a “internet primordial” ao serviço dos cidadãos

Esta “internet primordial”, que podemos fazer remontar ao período romântico dos anos setenta e oitenta do século passado, já lá vai, mas é interessante registar hoje um movimento de “regresso aos comuns” informacionais e cognitivos, para lá, evidentemente, da “ideologia proprietária” que ainda domina largamente o capitalismo como é o caso dos direitos de propriedade intelectual.

  1. O hipercapitalismo GAFA (Google, Apple, Facebook, Amazon) e NATU (Netflix, Airbnb, Tesla, Uber),

Este hipercapitalismo, também chamado de “uberização” da sociedade, à imagem e semelhança da empresa UBER, congrega os grandes conglomerados da nova economia digital. No estádio actual da revolução digital, o vazio de poder criado pela inovação disruptiva apanhou o Estado-regulatório bastante desprevenido, impreparado e impotente. Estamos hoje em plena sociedade algorítmica rodeado de plataformas e aplicações por todos os lados. Enquanto se aguarda que a nova ideologia regulatória, talvez de origem europeia, com o mercado único digital, tome conta da ocorrência e ponha alguma ordem no sistema económico, o mundo do trabalho oscila completamente ao sabor da economia das plataformas hipercapitalistas.

  1. A “uberização”, os “pronetários” e a lei de ferro da reputação

A ideologia da “uberização” é a última versão radical do capitalismo, desta vez com uma pretensão verdadeiramente alucinante, a saber, o anúncio de um novo regime independente pós-salarial “com reputação”.  Doravante, não há relação salarial, não há sindicato, a reputação não tem contraditório, não há hétero nem auto-regulação, não há estímulos, trata-se, afinal, de trabalho dito independente, mais uma prestação de serviço do que uma relação contratual. Eis, pois, a “modernidade liquida” (uma homenagem a Zygmunt Bauman entretanto falecido) em todo o seu esplendor: tudo fluido, precário, transitório, passageiro, como tudo o que a UBER transporta. Estamos, portanto, em trânsito acelerado do precariado industrial para o pronetariado digital, quais escravos das redes e dos aplicativos e das “estrelas de reputação”, sempre no interior do capitalismo neoliberal e numa clara regressão civilizacional em matéria de direitos económicos, sociais e humanos. É preciso avisar, em particular, os nativos digitais mais distraídos para esta “sedução virtual” e para a ilusão do auto-empreendedorismo acessível que é passada através de uma presumida relação pós-salarial. O espírito comunitário e a solidariedade cooperativa e colaborativa ainda são os melhores antídotos.

  1. A utopia dos pares e a sociedade dos bens comuns colaborativos

Na outra grande via aberta pelas tecnologias da informação e do conhecimento, a chamada sociedade colaborativa ou peer to peer (P2P), vamos encontrar a sociedade civil em pleno movimento de auto-organização no interior da chamada economia colaborativa. Aqui, parece, voltamos à “internet primordial” e às comunidades de fornecedores e utilizadores. Na “internet primordial” estamos entre pares, discutem-se a melhor configuração para os ecossistemas digitais e os ambientes inteligentes que sejam acessíveis para os novos colectivos que nos representam. A grande via dos bens comuns colaborativos merece muito maior atenção por parte do chamado “quarto sector”, pois há aqui uma enorme margem de progresso na boa direcção. O problema maior reside, porém, na conversão de comunidades online em comunidades offline ou reais.

  1. O Big Data e os mercados biface (two-sided markets)

Nas grandes plataformas e nas redes sociais em geral há uma produção continuada de informação que não é outra coisa senão a nossa memória e o nosso traço de comportamento em praticamente todas as circunstâncias da nossa vida quotidiana. Esta traçabilidade vai-se acumulando sob a forma de Big Data em grandes centros de recolha, tratamento e exploração de dados. Enquanto produtores dessa informação bruta, supostamente inofensiva, os cidadãos internautas não auferem nenhum tipo de compensação ou rendimento. Todavia, esta informação bruta, uma vez recolhida e trabalhada serve para traçar perfis de comportamento personalizados que são posteriormente vendidos às grandes companhias de bens e serviços. Estes mercados do Big Data com duas faces, muitas vezes intrusivos e agressivos, põem em causa a privacidade e os direitos fundamentais dos cidadãos.

  1. O “desligamento” entre trabalho e rendimento, o rendimento básico universal

De acordo com o filósofo Zygmunt Bauman, o velho limite sagrado entre o horário de trabalho e o tempo pessoal foi ultrapassado, estamos permanentemente disponíveis, esquecemos o tempo para o amor, a amizade e a solidariedade; hoje discute-se, mesmo, o “direito de desligar” fora das horas de trabalho. Por outro lado, a precariedade do trabalho e a sua intermitência são uma realidade e, também, o seu corolário lógico, a pluriactividade e o plurirrendimento distribuídos por tempos de trabalho cada vez mais fracionados. Quer dizer, no que diz respeito aos trabalhadores precários eles têm cada vez menos uma identidade fundada no trabalho e a sombra do futuro não os preocupa, pois no futuro mais ou menos próximo todas as sociedades serão uma espécie de colecção de diásporas. É neste quadro geral que se inscreve a temática do rendimento básico universal (RBU), um rendimento desligado do mundo do trabalho tal como hoje é concebido. É um bom tema para inscrever na filosofia social e política da sociedade dos bens comuns colaborativa.

 Notas Finais

 A terminar, e em jeito de síntese, quatro pequenas notas finais.

Em primeiro lugar, o divórcio manifesto entre a política (local) e o poder (global), isto é, enquanto a política é doméstica e está territorializada, o poder é global e extra-territorial. Perante isto, o Estado-nação, tal como o conhecemos, é impotente. O poder real está fora das fronteiras nacionais. A democracia doméstica não convence, é pouco efectiva e é arrastada por esta crise do Estado-nação.

Em segundo lugar, a democracia doméstica só agora aprende a lidar com o universo digital mas as contradições são inúmeras. As comunidades virtuais online também são extra-territoriais e não se identificam com as antigas comunidades reais offline. A cultura conectada é uma bricolage permanente, muitas vezes é uma verdadeira caricatura, o discurso público é retórica pura e o espaço público está muito fragmentado para ser representativo e eficaz.

Em terceiro lugar, o capitalismo vai atacar de novo na versão “3C“, cognitiva, criativa e cultural; será um capitalismo ainda mais sedutor, omnipresente na vida quotidiana e distribuindo sensibilidade, empatia e felicidade; o risco de alienação é enorme e está em causa a “economia da atenção”; o acesso fácil e rápido ao oceano de informação que a internet e os motores de buscam proporcionam é uma verdadeira armadilha e deve ser tomado com conta, peso e medida.

Por último, há uma esperança imensa na “internet primordial” e na capacidade que ela tem de nos mobilizar a todos na boa direcção; há já uma energia positiva muito forte à nossa disposição, basta “apenas” que ajustemos um pouco melhor a nossa hierarquia de valores e o nosso sistema operativo à comunidade dos pares e aos bens comuns e colaborativos correspondentes.

 

Publicidade
Partilhar
António Covas
Doutorado em assuntos europeus pela Universidade de Bruxelas Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve Vários livros sobre os temas europeus, as políticas do território e do desenvolvimento rural.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here