«Espaço Mariani» é aposta cultural forte em Monte Gordo

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A inauguração do Espaço Cultural Mariani aconteceu a 13 de Abril e contou com a adesão da população local
A câmara municipal de Vila Real de Santo António decidiu recuperar um espaço místico de Monte Gordo e transformá-lo num lugar de cultura e lazer, sem esquecer a história que acarreta e dando-lhe uma dimensão mais multidisciplinar.

Para muitos o «Cine Mariani» faz parte de uma época que marcou o panorama cultural e social de Monte Gordo ao longo de 50 anos [1950-2000], neste caso ligado à sétima arte [ler sobre história do Cine Mariani abaixo].

Grupo de teatro em sketches

Mas para muitos, sobretudo os mais jovens, esta será uma nova etapa que rompe com a inércia que se fazia sentir existir naquela freguesia do concelho de Vila Real de Santo António. De acordo com a câmara municipal pombalina “o projeto tem como objetivo a iniciação às diversas artes performativas, a inserção social e aproximação dos habitantes e entidades da freguesia à cultura”. Conta com uma sala multiusos com capacidade para 130 lugares sentados, zona de receção, lounge e bar de apoio, sala de projeção, sala de aula individual (instrumento), sala multimédia e um escritório.

A coordenar a programação e o espaço está Iuri Maló, acompanhado tecnicamente pelo músico Ricardo Cordeiro, e ambos estão empenhados em dar o máximo de qualidade a um espaço que vem dar resposta a uma lacuna cultural identificada.

A música será ministrada por formadores de canto e instrumentos

Segundo Conceiçãão Cabrita, vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, “o equipamento pretende imprimir uma nova dinâmica cultural a Monte Gordo, prevendo-se a criação de outros espaços similares na freguesia de Vila Nova de Cacela”. A Casa da Cultura Mariani está situada no Centro de Monte Gordo, no Largo da Igreja, e funcionará de forma permanente durante a semana e, pontualmente, aos fins de semana.

Espaço de espetáculos, formação de públicos e de artistas

Iuri Maló, neto de Evaristo Mariani, é agora coordenador do novo espaço cultural em Monte Gordo
Iuri Maló garantiu ao Jornal do Baixo Guadiana que “as linhas gerais da programação estão bem definidas”, sendo os próximos tempos de criação de hábito e de adesão por parte da comunidade de Monte Gordo. Está já criada uma carteira de formação multidisciplinar que terá lugar naquele espaço, com aulas de canto, música e teatro. “Trata-se de níveis de iniciação”, refere Iuri M. que sublinha que as aulas “estão abertas para todas as idades”. Existe, inclusive, uma parceria com a Associação Cultural de VRSA para as aulas de sopro.
Quanto ao grupo de teatro, este está a ser formado e encontra-se aberto para receber novos elementos, com ensaios todas as segundas feiras. Vai ser criada uma classe específica para crianças.
Estando localizado junto ao largo da igreja, Iuri tem em vista a realização de atividades ao ar livre, “que terão lugar durante os meses mais quentes”.
Entre as atividades programadas para o auditório, nos próximos meses, destacam-se as aulas de música, teatro e dança, workshops, concertos, exposições, cinema e espetáculos de vários géneros.
Sendo descendente direto de uma família empreendedora ao nível do cinema em Monte Gordo, e no Algarve, Iuri adiantou ao nosso jornal que estão “em vista diversas parcerias para reativar o culto do cinema em Monte Gordo”, garantindo que  “o cinema será sempre uma motivação”. Quanto a esta arte, avança-nos que “gostaria de preencher a programação do cinema com grandes clássicos e outros alternativos ao mainstream“, numa oferta, claramente, diferenciadora da que existe ao nível mais comercial.

De referir que a inauguração do novíssimo «Espaço Mariani» contou com parte da família do percurssor do cinema em Monte Gordo, nomeadamente a sua viúva que assistiu emocionada a esta nova geração de um lugar agora liderado pelo neto.

A história do Cinema Mariani em Portugal leva-nos até aos anos 40 do séc. XX

Evaristo Mariani escolheu Monte Gordo para estabelecer o negócio do «Cine-Esplanada Mariani»

A história da família Mariani no Algarve, e nomeadamente em Monte Gordo, faz-nos voltar atrás no tempo… Não nos deixa indiferente e é, sem dúvida, um paradigma de que quando as visões são de vanguarda e levadas a cabo com perseverança e determinação auguram sucesso. Sendo por isso, também, nos tempos de hoje, alvo de recordação e de homenagem na comunidade. Muitos foram os que viram filmes, mas também muitos ficaram ligados a estas memórias pela proximidade que tiveram à família e a este negócio pioneiro em Monte Gordo.

A família Mariani, e a sua paixão pela sétima arte, chegou a Portugal nos anos 40 do sec. XX. Surgindo no sul do país com o cinema ambulante, em que a narração dos filmes mudos era uma realidade. Cabia a Jerónimo Mariani, patriarca da família, essa função que entusiasmava quem acedia à «tela mágica»!

Mais tarde a família Mariani fixou-se no Algarve. Os filhos de Jerónimo Mariani seguiram o ofício do pai: o cinema. Cada um numa parte diferente da região algarvia, nomeadamente em Monte Gordo, Portimão e Quarteira, foram erguendo espaços de projeção de filmes. Um negócio sazonal que acompanhava o Verão quente, e com cada vez mais turistas. Monte Gordo, concelho de Vila Real de Santo António, à época uma vila piscatória, foi o local escolhido pelo descendente Evaristo Mariani, que aos vinte e poucos anos [entre décadas 50-60 sec. XX] já se estava a estabelecer com o seu Cine-Esplanada no mesmo local onde hoje conhecemos o novo espaço cultural de Monte Gordo, inaugurado a 13 de Abril último [ler notícia acima].

Evaristo Mariani foi um visionário para a sua altura, confirma-nos o seu neto Iuri Maló, que conheceu bem a paixão que o avô tinha pela sétima arte e com quem teve o privilégio de partilhar mais intensamente durante a década de 90 o então Cine-Esplanada.

A tela do antigo cine-esplanada Mariani

De referir que em Monte Gordo o Cine-Mariani “era um cine-esplanada num barracão feito em alvenaria com telhado de zinco que funcionava entre Maio e Setembro e que tinha capacidade para cerca de 300 pessoas”, sendo que em Julho e Agosto haviam duas sessões por noite. Iuri Maló ajuda-nos nestas memórias, ele que com apenas 8 anos já indicava os lugares na sala de cinema, encaminhando as pessoas para as suas cadeiras. Aliás, todas a família estava envolvida neste negócio onde a cultura era ponto alto.

Entre os finais os anos 80 e finais dos anos 90 o Cine-Mariani conheceu o auge, até porque beneficiou do crescimento turístico de Monte Gordo enquanto destino de férias para muitos. “Era um lugar de culto para assistir aos filmes tanto para os turistas como para os residentes”. Lotações esgotadas, uma oferta cultural diferente e muito apreciada por um turismo assente em famílias que juntas lá seguiam rumo a uma noite quente bem passada em frente a um ecrã generoso em tamanho e em histórias.

Durante o dia, que era de praia para muitos, o nome dos filmes a exibir iam sendo espalhados pela vila por Iuri e o avô. Ao final do dia as bilheteiras abriam e os lugares ficavam lotados. “Depois de cada noite de exibições era hora de retirar os cartazes para no dia seguinte de manhã serem colocados outros, com as novidades!”. Mas as recordações de Iuri também nos levam pelo processo de recolha dos filmes enviadas pelas distribuidoras para o Algarve. “As bobines vinham em sacos de pano, enviadas de comboio pelas distribuidoras Castello Lopes e Lusomundo”. Evaristo Mariani corria para as receber e se por um acaso chegasse tarde à estação lá tinham de seguir de carro até Faro para buscar as suas preciosas encomendas. Outros tempos.

A entrega e o amor ao cinema por parte de Evaristo Mariani foi sempre muito grande. Um sentimento forte que nunca esmoreceu, nem mesmo quando o visionário Mariani deixou de ter filmes para exibir… Todos os dias, pelas nove da manhã, religiosamente, Evaristo Mariani abria as portas do espaço do seu cinema, entretanto totalmente remodelado “e, inclusive, oleava as máquinas, mesmo sabendo que não iria haver qualquer atividade de projeção”.

O antigo edifício em alvenaria.

Muitas histórias sobre a vida do Cine Mariani há para contar! Parte delas são contadas pelas fotografias ou pelo espólio que a família guarda religiosamente. Como são caso disso os cartazes dos filmes, as bobines, as máquinas de projeção analógica e o microfone, entre outros materiais de que a família dispõe e que poderá dar azo a uma eventual exposição temática.

Curiosidade:

É de referir que, nos últimos anos de vida Evaristo Mariani foi responsável pelas projeções de cinema ao ar livre que o município vizinho de Castro Marim levava a cabo na praça 1.º de Maio, na vila medieval. Para lá Evaristo M. levava a sua máquina de projeção e a sua sabedoria nesta arte de projeccionista com 80 anos de atividade ligada desde sempre ao cinema.

fotos cedidas por:
CM VRSA (atuais)
Família Mariani (antigas)
*notícia corrigida às 14h00
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Susana Helena De Sousa
Formação Superior em Jornalismo (Carteira Profissional 9621): Especialização em Imprensa Escrita pelo Centro Nacional de Formação de Jornalistas (CENJOR) Formação media pela Representação da Comissão Europeia em Portugal Experiência em Jornalismo: Rádio (Voz D'Almada, PAL FM, Guadiana FM), Televisão (TVI, AXN, RTP, Canal História) e Imprensa Escrita (Jornal de Setúbal, Semanário O Algarve, Jornal i, Jornal do Baixo Guadiana); Tese de Licenciatura Bi-Etápica: «Serviço Público de Televisão», (publicação com entrevista a Carlos Pinto Coelho) Co-produção, realização e apresentação do programa de Rádio «Se Dúvidas Existem...», do Núcleo de Estudos e Intervenção Psicolõgica de VRSA Co-produção, realização e apresentação do programa «Viver Aqui», do Núcleo de Imigração da Cruz Vermelha Portuguesa de VRSA para o Alto Comissariado para o Diálogo Intercultural Assistente de Realização para Televisão Produtora para Televisão Escrita para Reportagens Televisivas Escrita de Documentário para TV «O Contrabando no Baixo Guadiana» Escrita do texto filme documental «Um Dia na Santa Casa», de Eduardo Soares Pinto Formação Avançada em Dança Contemporânea (CIRL) Formação Inicial em Teatro (TAS, Teatro O Elefante) Formação Inicial Interpretação para Televisão (Aloysio Filho pela ACT) Participação em antologia poética «5.50» (Poetas do Guadiana) Escrita de prefácio para obra editada (Os Poetas do Guadiana nos meios de comunicação social) e outra obra inédita Autora convidada do livro de contos «Ruas» de Pedro Oliveira Tavares e João Miguel Pereira Revisão de Livro de Contos inédito de Mouji Soares Curandoria de exposição de fotografia de Eduardo Soares Pinto, Espanha Co-organização da exposição internacional de arte «Minha Fukushima» na Eurocidade do Guadiana, da Peace and Art Society Organização da Exposição «Aline´s Project» em VRSA, da Peace and Art Society Apresentação de Galas Moderação de Debates e Tertúlias Apresentação de Livros Organização de eventos Co-fundadora do Eco&Design Hotel «Monte do Malhão» Co-fundadora da Mostra Internacional de Cinema «FRONTEIRAS» Voluntariado para a área da comunicação em IPSS's

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