A arte e o ofício do albardeiro nas memórias do Baixo Guadiana

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“Albarda-se o burro à vontade do dono”

                O ofício de albardeiro, hoje em desuso, constituía uma arte fundamental na sociedade ruralizada do Baixo Guadiana de há algumas décadas. Em tempos rendosos, numa época em que os animais eram indispensáveis às variadas tarefas diárias, o serviço do albardeiro acumulava-se, fosse para o trabalho no campo, carrego de mercadorias ou transporte de pessoas. Consertavam e faziam as albardas e molins, peças fundamentais da “albardadura”, o aparelho utilizado para arrear burros, machos, bestas e mulas.

A albarda, além de funcionar como sela para transporte de pessoas, resguarda o lombo das bestas das cargas, incluindo o uso das cangalhas para transporte da água em cântaros. São feitas à “medida” do porte do animal, ou mesmo da carteira do dono; e adaptadas ao seu uso: para carga ou então para deslocação de pessoas. O albardeiro, habilidoso, segue os princípios definidos para a estrutura da albarda, ao longo de um dia, o tempo habitualmente necessário para a execução de cada peça. A sua agulha transforma os materiais flexíveis em sólidas albardas ou molins. Antes de iniciar a albarda, é fundamental conhecer o animal a que se destina, para que o molde se adapte na perfeição ao corpo.

O molde em serapilheira é cosido com fio de sisal forte e depois cheio com palha de centeio, que é colhida inteira, para tornar a albarda mais resistente. Depois de enchumaçada de palha, é novamente reforçada com serapilheira. Para fortalecer a peça, as extremidades são forradas em carneira ou couro, este mais caro e, como tal, menos utilizado. Por vezes, a albarda era reforçada com uma enxerga em palha de centeio. Para o trabalho eram mais simples e menos decoradas que as utilizadas em cerimónias festivas ou para transporte de pessoas. O gosto do dono, a sua disponibilidade financeira e a habilidade do artesão influíam na decoração da peça. Os enfeites eram em lã colorida, por vezes de cores berrantes, em linhas, pontos ou borlas cozidas junto à dianteira. Em dias de festa ou casamento, era colocado na albarda o bancal, feito em lã, de forma retangular, com riscas em várias cores, tendo bordadas nas pontas as iniciais da família.

A albarda é apertada ao dorso do animal com uma cilha, feita de corda entrançada, com cerca de dois metros. Bem apertada, permite que o animal seja montado em segurança. Para o trabalho no campo, a carga ou a cangalha eram seguras com o sobrepeso ou “sabucarga”, semelhante à cilha.

Por último, compõem ainda a “albardadura” o molim ou a “monilha”, feita de novo ou concertada pelo albardeiro. Muito semelhantes, apenas se diferenciam pela decoração, que denuncia a sua função. O molim, mais requintado, é utilizado em passeios ou cerimónias festivas e vulgarmente adornado com três espelhos – um maior e dois mais pequenos de tamanho idêntico –, com borlas de lã coloridas. No alto levam cerdas da crina ou do rabo do animal. Já a “monilha”, mais simples, é utilizada nos trabalhos agrícolas e possui na sua estrutura uma ranhura que serve para meter a canga. Tal como a albarda, são moldadas em serapilheira, cheias com palha de centeio e reforçadas com carneira ou couro. A barrigueira em corda e as tiradeira em couro ou corda seguram o molim ou a “monilha” ao animal.

 

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Pedro Pires
Natural e residente no Concelho de Castro Marim nasceu a 13 de Outubro de 1984. É Licenciado em Património Cultural, pela Universidade do Algarve (2004-2009) e possui uma Pós-Graduação em Património Cultural Imaterial, na Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologias (2012). Exerce funções de Técnico Superior de Património Cultural da empresa municipal NovBaesuris EM, SA de Castro Marim, desde 2011. É membro do Centro de Estudos em Património, Paisagem e Construção da Universidade do Algarve (CEPAC/UAlg). Foi Bolseiro de Investigação do Centro de Estudos de Património e História do Algarve, da Universidade do Algarve (CEPHA/UAlg), entre 2009 e 2010, no âmbito do protocolo entre este e o Município de Castro Marim, para a elaboração de conteúdos na exposição “Algarve, do Reino à Região: Castro Marim, Baluarte Defensivo do Algarve”. Co-autor das publicações “Castro Marim, Baluarte Defensivo do Algarve” e “Acordeão ALM’Algarvia”, resultantes das exposições homónimas do Município de Castro Marim. Colaborador do Jornal do Baixo Guadiana, na «Rubrica de Património», com artigos acerca do património cultural do Baixo Guadiana (2012 a 2016). Autor de vários artigos já publicados e outros no prelo, bem como de comunicações e palestras acerca da História e Património Imaterial de Castro Marim.

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